31 de jul. de 2016

O primeiro jornal (ou o último)

Nunca sabia se era o primeiro jornal ou o último.

Olhava pela janela a hora passar, se arrumava toda para ir a lugar nenhum. Escutava o vento passar como uma pomba que voa. Escovava os dentes porque era assim o ritual.

Um dia ela acordou de dia. Era manhã e era vida. Era tudo quase do jeito que tinha que ser. Ela então foi ler os jornais e ler os sinais: todas as notícias do mundo eram iguais - afinal, seria isso o primeiro jornal ou o último?

O celular apitou e era alguém do país onde está a Alsácia-Lorena: seu amigo lhe avisara que estava como era, e que ela o conhecia. Sim, pensou consigo: está tudo do mesmo jeito - embora novo, continua igual: afinal, isso é ser primeiro ou ser último?

Um dia as manhãs de sábado amanheceram amarelas mas sem sol. O céu tinha, finalmente, a cor que a gente pinta. Ela ficou olhando para os próprios pés. Ela sairia correndo para casa-em-lugar-nenhum a qualquer momento porque as pessoas, no final, a cansavam. Mas havia sempre seu sorriso em seu rosto, até nos pequenos momentos. Enquanto isso, fixava o olhar no morro povoado por casebres ao fim da rua e perguntava: isso é primeiro? Ou último?

Um dia ela começou o dia toda animada. E foi passando os segundos que a levaram até a exaustão. Ao fim de uma tarde, era ela e estava: sua cama parecia um conforto, mas sentia-se desavisada. Ah, quanto há para se viver! Vamos correr porque hoje soa como o primeiro dia, mas pode ser o último!

Um dia todas as folhas caíram das árvores e todas as folhas de um caderno foram escritas. Um dia ela enviou todas as palavras que um dia escreveu. Um dia ela ligou só para ouvir a voz, mas não falou nada. Um dia ela tocou novamente aquela música que mudava o momento atual de lugar. Um dia ela pisou em um espinho que entrou no seu pé. Um dia ela comprou uma coisa e pensou: isso, é só para enfeitar. Um dia ela usou outra coisa que havia comprado. Um dia ela disse que nunca mais compraria nada. Um dia ela buscou a si mesma naquele lugar em que se deixou desamparada. Um dia ela levantou e olhou e viu.

Enquanto isso, andava os dias a pensar quando aconteciam as coisas boas: esse jornal, afinal, é o primeiro ou o último?

20 de jul. de 2016

A streetcar named desire

It's always when I'm driving my car. My beautiful car, because I don't care about cars. But there's a D in my car.

I'm driving throughout the city. I've got nowhere to go. And you, where are you where have you been? Wait - did I just pass by desire street?

By the way, I don't like plays, I didn't take that "drama class" back in college, I was so proud of me for not taking it, though I've read a few plays. By the way, my favorite play is Waiting for Godot, oh, and The Glass Menagerie. And any and all by Oscar Wilde because it's Oscar Wilde, who was born on the same day as my mom - I've always knew that even when I wasn't aware of it.

By the way, I don't like plays. I was sorry for that girl who once went to a Shakespeare play which took place right in front of the Old Main depending on where you were. I mean, who cares if you want to go to plays when I don't even like reading Shakespeare?

A streetcar takes me to a place called desire. It's where you are. Where have you been?

A streetcar named desire lives inside my heart and therefore it beats faster. Last Saturday this Professor asked me "in what language do you write", and I was stuck in my mind. I can't say; I only write.

A streetcar named desire takes all writing to you. (Oh, they all lead to you in the end). Because my writings are the breaths of my heart. But some times they're nothing. It's all true, but not always accurate. It's drama, so I play. 

By the way, I don't like plays. But I like your name: like a streetcar, it's named "desire".

19 de jul. de 2016

Ai de mim, que sobrevivo sem o coração no peito

Eu hoje vi uma menina igualzinha a ela, minha Ana querida. Entrei, olhei e vi: lá estava. Eu sabia que não era aquela menina que, nas minhas lembranças, é do sul mas é de São Paulo, mas eu fingia que era. Só para sentir-me mais perto. Olhei o nariz, olhei os olhos e o contorno do rosto. Então, pensei: "e agora? será que ela vai fazer aquela cara?". E fez. Enquanto isso, eu não conseguia piscar, eu não parava nem de olhar, e me dei conta que estava com o coração a bater na palma da mão.

Eu hoje fiz um caderno. E pensei em quantos cadernos na vida eu tenho, e quantas vidas cabem em um caderno, e quantos cadernos serão precisos para escrever a minha vida. Enquanto isso, era invadida pela leveza do desejo, da paixão e desespero, pois meu sonho mais próximo estava prestes a se realizar: confeccionar cadernos. Ah, meu coração, que naquele momento batia fora do peito.

Eu hoje caminhei por um lugar cheio de árvores floridas em tons quentes só que era inverno. Eu olhei para elas mas não olhei muito, sentei, tirei um livro cor-de-rosa de um assunto muito sério que estou lendo e fui deixar o dia passar: e meu coração, batendo fora do peito.

Eu hoje sei que em algum momento do dia você apareceu. E me invadiu da sua maneira, sem pedir licença e se esparramando sobre o meu peito, até tomar conta de mim. Para depois ir embora, mas só depois de me roubar de mim. E, neste momento, eu provavelmente estava dirigindo e passando por algum local que me despertaria a nostalgia, e fico dividida entre ser uma boa motorista fria e atenta, ou uma menina toda sentimental a chorar de saudade. Ah, meu coração, que me habita fora do peito!

Eu hoje cheguei em casa e vi uma coisa linda que aconteceu uma vez. Eu recitei todos os detalhes que estão marcados em mim como poesia da qual não me esquecerei nunca. Eu sorri até me emocionar. Eu corri ficando parada. Eu dei um grito dentro de mim. Ah, para a perfeição daquilo que habito, empresto o meu coração fora do peito.

E, para todas as coisas que me são queridas, para todas as coisas que foram vividas, e desejadas, e amadas, e lembradas e guardadas - para todas elas: ai de mim, que sobrevivo sem o coração no peito!

17 de jul. de 2016

Em algum lugar estás a esta hora

Acordo com o dia, abro o olho e logo penso: onde será que ele está agora?

No meio da manhã, não penso em nada, porque a manhã é comum a todo mundo: as pessoas fazem a mesma coisa.

Mas, no fim do dia, quando a noite começa a dar o ar da graça, lembro comigo: em algum lugar ele está.

Eu hoje acordei cedo e esperei a hora passar deitada na cama. Levantei e me vesti toda de mim para ir num lugar perto da minha casa escrever crônicas. Eu olhei o relógio e ainda assim errei a hora. E então, ao chegar quando tinha acabado e não poder fazer nada, pensei: o que será que ele faz agora?

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Eu entrei no meu carro, muito querido, que me leva em todo lugar. Eu observo as árvores pelo caminho e sinto uma gratidão tão grande quando vejo o bairro todo enfeitado de ipês no inverno do meu mês: era só distração de um pensamento - você. Você: em que lugar estás a esta hora?

Eu hoje andei por muitos caminhos. Subi uma ladeira estreita que um dia eu olhei de longe e com medo e pensei: ali, só subo a pé. Mas no outro dia eu subi de segunda marcha e, hoje, subi de terceira a conversar. Eu hoje estava distraída, e corajosa, e cheia de perdão a mim mesma. Eu andava esperando vendo-o passar - ah, se pelo menos ele estivesse aqui!

E ainda hoje eu andei novamente pelo bairro, depois saí da minha casa e fui viver. Mais tarde, cruzei a cidade e passei perto daquele lugar em que meu amigo um dia ficou: toda vez que passo ali lembro de quando todos eles vieram da França. E você, em que lugar estaria a esta hora em que lembro dele e não de você?

E, por último: vejo um vaso de flor na varanda de um prédio, a rua parece lugar nenhum, entro e saio do cinema, passo em duas livrarias só para não perder o costume, compro um presente para a minha irmã porque meu coração é feito ternura, sinto o cheiro do que é distante, não vejo rostos na multidão, fico com vontade de comer um hambúrguer (todos os dias tenho esta vontade), levo um caderno comigo por precaução, noto as cores do céu, converso com um milhão de gente e ainda me sinto sozinha, vejo imagens de balão que andam aparecendo para mim no Pinterest, experimento um pouco da minha indecisão cotidiana, prendo o cabelo num coque bagunçado, coloco brincos vermelhos e noto que é a segunda vez nesta semana que uso vermelho e isso nunca acontece, leio uns poemas do Ferreira Gular na fila só para fazer umas anotações que mais tarde serão usadas, pergunto o preço de um livro e digo como não gosto de perguntar preço de livro, prometo passar na rua coberta de flores ao voltar para casa mas então já é noite e escuridão, observo como as ruas estão vazias e sinto um leve palpitar no peito, meu pensamento me escapa e vai até você, tomo sorvete e penso que mais tarde tomarei de novo e como isso acontecia mais vezes antigamente, fico de novo indecisa, digo a mim mesma "como os filmes poloneses são bons", me imagino falando uma coisa que li um dia, volto para casa e olho para o Andreas e lembro "nós dois uma vez na viagem pela Polônia" e sorrio e vejo na foto que ele sorri também, ... e agora fiquei com preguiça de escrever o que mais aconteceu no dia, que, das 24 horas, tem você em algum lugar a esta hora.

A esta hora... esta e aquela. E as horas do tempo todo.

14 de jul. de 2016

O futuro já começou

O futuro já começou: começou ontem. Começou naquele momento que você não saberia dizer. Naquele instante que passou despercebido. Começou com um som característico que tocava em lugar nenhum. Começou quando achava que não dava.

O futuro já começou e se parece com as janelas abertas de um casarão. É quando piso em uma rua de calçamento - coisa antiga que ainda existe. É quanto toca no rádio a música gravada quando eu ainda nem havia nascido. O futuro já começou e tem cor e gosto - e dá até para ver.

O futuro começou num dia específico. No momento da hora. Na eternidade do estado das coisas. Começou quando eu nem havia começado. Quando eu não estava pronta e pedi para esperar. Quando saí correndo apressada e esqueci algumas coisas pelo caminho.

O futuro já começou e soa como palavras aos meus ouvidos. Eu pensava que ele seria feito hoje para acontecer amanhã, mas o futuro ganhou lugar, na verdade, anos atrás.

O futuro já se iniciou com um sorriso. Ele veio no dia em que você disse um não, no momento em que aceitou um sim, quando abriu a porta e tornou a fechar porque estava com vontade. Ele se parece com uma criança, mas eu diria que ele se parece com a gente mesmo.

O futuro começou na vida quando você fez as suas escolhas, quando dependurou a roupa no varal, quando folheou o jornal e o fechou abruptamente. Era como colocar o telefone no gancho sem a ligação ter terminado: apenas porque queria, sabe como é?

O futuro já começou e tem a cor que a gente pinta. Parece ter  tons pastel. Ouvi falar que tem cheiro doce e é de uma profundidade sem igual. Cabe nele toda a poesia e, por mais intrigante que pareça, pode ser escrito em uma folha de papel.

O futuro já começou ontem: vá vivê-lo neste momento que ele se torna amanhã.

6 de jul. de 2016

Tomando para mim o que era meu

Um livro de capa azul que te leva para dentro de lugar nenhum. Esse lugar, por toda parte, traduzido em palavras.

Um dia a amanhecer de manhã cedo, permitindo-me espreguiçar-se o dia inteiro.

Os detalhes do meu bem que nunca te farão mau. Todos os detalhes do mundo inteiro anoto num caderno depois de ver com os olhos. Isso, é para guardar no coração.

Eu, que vim primeiro. E desbravei todo o território de ser. Fui sendo eu até quando deixei de ser minha, deixei de ser única e passei a dividir amor de pai e de mãe.

Penso que essa mania de ser indecisa é riqueza de ser humano. É quando a pessoa tem tanta alternativa simples na vida que torna complexo a questão de escolher. Deve haver de tudo um muito em uma pessoa que vê 8 lados de uma coisa, porque dizem que tudo tem 2 lados, e ainda há gente que só vê um.

Se um dia você pegou um autógrafo, obrigada pelo favor que me fez. O meu lugar, você não pega de jeito nenhum. Nem aqui, nem aí, do outro lado do mundo mais ao norte onde as calotas polares, neste momento, degelam. O meu lugar você não toma de jeito nenhum.

Um dia eu era filha única, porque sou única todinha. E, depois de um dia, chegou uma pessoa que se envergonhou de não o ser: é que eu já existia. Sinto muito, havia nascido.

Escolhi estudar um negócio que eu nem sei muito bem o que significava. Fui estudando, mas fui mais era lendo. Porque estudar para mim é ler, e ler é estudar. E aí eu fui para a aula e levei um caderno, desci e subi as escadas que ligavam os andares, virei as tardes na biblioteca para não dormir na hora errada. Um dia chegou alguém e quis fazer tudo igualzinho - mas eu já fazia. E essa pessoa nem podia ser autêntica, porque as pessoas autênticas são aquelas que vão primeiro, são primeiro, desbravam primeiro - embora fiquem por último. Mas a contagem do relógio da vida é outro, e não há fuso horário. Nem onde há calotas de gelo, nem onde há calotas de gelo...

Enquanto isso, leio-te todinha, pisco os olhos para disfarçar o que não consigo, desenvolvo um estudo do seu ser e te eternizo em uma revista literária de psicopatia.

O mau do malando é achar que nem todo mundo é esperto.

4 de jul. de 2016

Apressa-te, amor

Quando olhamos para frente, com a certeza de saber nada, nos sentimos tão velhos. Mas quando olhamos para trás, ah, nos sentimos tão jovens. Parece que o dia começou ontem e só há pouco começou a clarear. A aurora que chega no fim do dia - mais precisamente, 18h - não tardará a se apressar, mas mas só para se estender devagarinho.

Será que, assim que o tempo passa, as ruas calçadas são trocadas? É que eu pisei nesta rua e queria deixar aqui sempre um passo meu. Vai que alguém se encontra perdido por aqui um dia...

Enquanto isso, apressa-te amor, apressa-te que amanhã eu morro! Vira o rosto e olha de volta para mim, que ando atrás de você. Desce os degraus como quem nunca aprendeu a andar. Mas apressa-te, amor.

Compra um leite para mim na padaria. Compra, porque leite é a minha bebida favorita. Guarda a caixa com carinho - se te ocupa lugar no coração, não há porque se ausentar de casa. Diz-se que na vida há lugar para tudo, mas o que mais ocupa espaço são as memórias das coisas vividas.

Lembra-se do dia que eu te escrevi um detalhe? Lembra de como te atentei para ele? E quando, mais vivida da vida, te segurei a mão? E te recebi num espaço e te dividi meus pais que eram até então só meus? E quando te dei as minhas roupas, porque você finalmente cabia nelas? E ainda li o que você escreveu - logo eu, eu não leio quase nada que as pessoas escrevem, porque estou sempre lendo os grandes escritores. Apressa-te, amor.

Apressa-te amor, chama o número de onde estou. São tantos números mas lembra que um deles é meu favorito. Dá um passo e entra no avião. Manda uma carta e eu vou te vendo. Prometo que não faço barulho, nem com meus olhos eu vejo, e ainda cuido do teu gato. Por isso, apressa-te, amor.

Apressa-te, meu outro amor. Inicia a letra escrita. Acaba, assinando o meu nome. Já sei qual nome é o seu. Ele está em todo o lugar e para ele tenho três pronúncias: como quer que eu te chame?

Apressa-te, amor, olha fundo nos meus olhos para nunca esquecer de qual cor eram. Pega e sente o meu cabelo, que é macio e tem cheiro de mim. Faz nascer em mim poesia que eu te escrevo - a ti me escrevo todinha. 

Repara bem nas minhas mãos, como andam perdidas. Não saem de mim, mas não me levam a lugar nenhum. Eu hoje olhei para o lado e vi seus olhos e abri um sorriso todo meu. Por isso, apressa-te, amor. Apressa-te que aqui ainda são menos horas, e você ganha mais tempo no dia. E você pode ainda se redimir, vivendo tudo o que teria vivido e não viveu - e nem me permitiu. Apressa-te, amor, anda rápido com ternura, estende os braços que irei lhe abraçar, faz um chamego ao pé do meu ouvido, fala uma palavra com um sotaque só-somente seu! Apressa-te amor, que eu não te esqueço.

Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te vejo!