21 de mar. de 2017

O tempo passa como um leão que ruge

Meu querido: o tempo passa como um leão que ruge.

Ainda ontem nem era hoje, e hoje já é quase amanhã.

Tudo o que é preciso é eu apagar a luz do quarto: sou dona do próprio tempo.

Minha querida: o tempo passa como um leão que ruge.

Já começaram as provas, já se iniciaram as datas, o calendário não para e a linha temporal é tênue.

Acredito que perdera a conta, mas você sequer contou. Um dia de cada vez não é soma, porque não é dia nenhum. Um dia de cada vez e o ano não existiu. Um dia de cada vez e fico rouca e a voz então some. Um dia de cada vez parece uma eternidade: mal começara e eu já o via acabando.

Que não se engane quem nunca andou: o tempo passa mesmo assim. Mesmo para esses.

O tempo passa como um leão que ruge: descobri em um pedaço de papel com data. 17 sempre foi o número de sorte do meu pai - mas, naquele-março-naquele-ano, sorte só se for a dele. Até hoje não foi a minha. Porque chegou março outra vez, o que quer dizer que outro março se foi.

O tempo passa como um leão que ruge: ruge alto, longe, e ecoa...

O tempo passa ... como um leão que ruge.

14 de mar. de 2017

Quanto a mim, choro menos

Quem sabe eu precisasse avisar: quanto a mim, choro menos.

Não choro mais com comerciais de tv; nem com finais de filme. Nem no meio do filme eu choro mais. Não choro mais com trilhas sonoras no fundo e nem com a mensagem que eu entendi porque estava ali só para mim.

Só de vez em quando vem o choro e eu não posso segurar: mas choro menos.

Caminho a passos largos os passos curtos que dou e mal tenho tempo de virar para o lado e sentir a poesia do que aquilo significava para mim: é como se eu estivesse me dessensibilizando.

Tenho atravessado as ruas com cuidado, o que é o mesmo que cruzar as vias sem olhar para o lado. Dá no mesmo a todo momento. Escrevi o recado com uma letra qualquer. Dobrei um papel de forma assimétrica. Amassei o papel que embrulhava o pão: é que tenho chorado menos.

Só de vez em quando vem a vontade, maior que a força contrária, e deixo-me ser: choro, mas choro menos.

Quanto a mim, choro menos: raramente vejo seu rosto em alguma parte que ainda ficou e, quando vejo, só olho. Se escrevo, nem digo nada, apenas faço o contorno das letras. Há muito tempo não leio poesia e esqueci como é deixar-se interpretar para entender o que estava escrito. Penso que os escritores não queriam dizer nada, queriam mesmo só escrever.

Quanto a mim, choro menos: pego na sua mão que foi como um sopro, olho para o seu olhar que me ensinou a ver tantas novas coisas e as mesmas de forma diferente, respiro o cheiro do seu corpo, ouço o zumbido do seu sotaque ... e, então, ligo a tv. Termina assim.

Só de vez em quando vem a vontade de chorar: meus olhos ficam pesados como se nuvens acima de mim, e dentro de mim, e fora - no mundo inteiro. Isso acontece tão pouco na vida que tenho pensado que sou forte, quando é exatamente o contrário: é que choro menos, bem menos.

Hoje em dia, choro menos: mas arrasto os ponteiros do relógio, que sequer passam devagar. Levo-os para o fim do que seria um dia, para sentir o que é acabar para começar tudo outra vez: parece uma promessa.

Enquanto isso, quanto a mim, choro menos.


9 de mar. de 2017

Longe daqui, aqui mesmo

Longe daqui era aqui mesmo.

Era um lugar que não poderia ser.

Parecia um lugar em que sempre vivera, mas que sequer havia existido.

Longe daqui, aqui mesmo: porque é o mais longe que se pode ser.

Parece o infinito: olha-se e não se vê nada. Não se parece com nenhuma observação.

Longe daqui era um aqui mesmo bem aqui, mas ali. Eu não sei se estive lá, só sei que não estou, mas sei também que estaria.

Era uma vez um lugar muito longe: aqui, aqui mesmo. E, mesmo sendo aqui, era longe de si.

E não havia ponte que ligasse, nem caminho que soubera traçar. Não existia nenhum mapa. As coordenadas descoordenavam-se.

Era um lugar sem ser: era um lugar que não era.

Longe daqui era o aqui mesmo.