7 de mai. de 2017

Tempestuosidade

Um dia eu andei numa rua imaginária mas que havia existido numa história anterior. Nela, dei-me conta de como anda o tempo: para frente e para trás.

O tempo anda de um lado para o outro, de uma maneira que me faz perguntar se ele sabe aonde está indo.

O tempo está à nossa direita e à nossa esquerda e, ainda assim, ele existe atrás de nós e à frente.

Tudo isso me faz presumir que o tempo é além do tempo.

O tempo é além das horas que demos a ele. O tempo acorda quando o céu fica claro de novo, e não às 6h da manhã. E ele só escurece ao fim do dia, nunca às 18h.

O tempo é dono de si e toma seu próprio rumo a fim de fazer nossos caminhos.

O tempo é o significado que ele tem. E, esse nome, foi nós que demos a ele.

O tempo soa como a melodia que se escuta há dois vales de distância, tem a textura de uma folha de papel depois de ser escrita, sobe o rio como os peixes chegam às margens quando buscam alimento.

Um dia eu andei numa rua imaginária mas que havia existido numa história anterior e entendi o valor do tempo: ele vale mais do que as horas com que o preenchemos.

Eu não entendo nada, mas daí eu entendo tudo. Eu paro e olho e vejo uma porta verde oliva e quem um dia esteve escorado nela, com uma jaqueta colorida e uma placa que dizia "igreja não sei de quem". Mas deveria ser de algum santo que foi algum homem que pisou nessa Terra. Nesta hora, estou me dissipando, mas estou sendo eu mesma, e nenhum pedaço de mim se dissipou, porque sempre mantive-me inteira.

O tempo um dia voltou e me olhou cara a cara. E ele já fez isso de novo mais vezes. Parecia ser inverno de novo, e então primavera - mas tudo era apenas o tempo sendo ele mesmo.

Pedem para que demos tempo ao tempo, mas o tempo não precisa de nós, nem do que temos a oferecer a ele. O tempo é que nos dá e, por isso, peçamos: dê -nos tempo.

Dê -nos tempo, porque hoje já é quase ontem de novo. Dê -nos tempo porque o dia acaba e já é quase amanhã. E então, é tudo novo de novo, e e até a gente é novo de novo, e tudo é resinificado e passa a ser como o Primeiro Dia da Criação.

De-nos tempo para assimilar o que temos aprendido. Peço tempo, porque fui conversar uma conversa difícil, e só agora colho os resultados. Peço tempo porque no começo eu não entendia nada. Peço tempo porque só depois entendo o nome das coisas. Peço tempo porque estou a ser eu mesma, quem fui desde o começo em que meus pais me fizeram: saí na rua, e estou a ser.

O tempo fez um acordo comigo, deu um giro e se foi. Desde então, é tempo transcorrido, tempo mantido, tempo para passar e passar dos tempos. Cai a tempestade e então somos lembrados: é tempo. É o tempo. É apenas o tempo sendo ele mesmo e lembrando-nos: sejamos, também.

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