15 de mai. de 2017

A insustentável leveza do ser

Eis que olhei e vi: era ele e era ali.

Era sexta de manhã, na cidade-do-fim-do-mundo, no sol do meio-dia-de-todas-as-horas e aconteceu logo ali: meus olhos viram a leveza do ser. Eu nunca teria sequer imaginado tal possibilidade.

De repente, passou por mim algo alto e leve, embora de profunda presença. No meio de tantas pessoas e premiações, quando o sol bate no verde da grama e reflete nos meus olhos, ainda assim o vi.

O vi, porque o notei.

De repente, e não me dei por mim.

A insustentável leveza do ser: quando aquele alguém (ele) caminha a passos largos e rápidos e até parece que está correndo. E seus cabelos estão ao vento. E combinam com a barba. E seus olhos eu não vejo, mas reparo no movimento do caminhar. E do parar. Onde coloca as mãos. O tamanho do sorriso e a forma que a boca toma quando abre um sim.

A insustentável leveza do ser: quando alguém (eu) dá-se por vencida sem nem lembrar que aquilo era jogo. E vê-se, de repente, desarmada. E todos os muros construídos por anos caem ao chão. E os olhos não param de olhar para o seu único objetivo: a beleza da criação logo ali. E pego-me sorrindo, e rindo de novo, e sem usar a razão. Logo eu, dona de mim. E leve, como se todos os dias não tivessem sido nada mais que o primeiro. E o primeiro, enfim, chegou.

Pegaria a chance que passara sob o meu nariz? Mas, como é que se faz? Eu sequer lembro o nome. Eu nunca fiz esforço físico nenhum. Eu nunca dei um passo naquela direção. Diga-me, menino-bonito, como é que se faz? E como é o seu nome, que eu logo descobri? E como falo com você, se já sei seu número mas não sei quais palavras usar? E se eu te escrevesse, você leria? Mas é que eu escrevo de um jeito que dá voltas - você entenderia? E o que eu não disser e só te olhar nos olhos, você consegue perceberia?

Diga-me, menino-bonito, porque estou logo aqui e você logo ali.

Diga-me, como um sussurro, para combinar com a insustentável leveza que atingiu meu ser, para ser parte do inteiro que é você, para ser leve como os passos que deu e eu contei quando olhei. Diga-me: como ser assim desse jeito que você é? Por que és assim tão bonito de um jeito que só você é e que só eu naquele dia vi?

Diga-me, menino-bonito, que estou daqui a te ver e me sinto leve, de uma forma insustentável que eleva o meu ser.


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