Partir não é deixar de ser, porque tudo continua sendo, mesmo que apenas existindo.
Partir não é deixar de ser: é só andar quatrocentos passos à frente e, depois, virar à esquerda. Poderia também ser à direita. Acho que tanto faz.
Partir não é deixar de ser, porque partistes deste mundo e mesmo assim você tem estado: hoje mesmo falamos de você. Ou melhor, escrevemos. Ela me perguntou como você era, como você era comigo e como éramos juntos. Tudo uma questão de ser: logo você, que nunca deixou de ter sido.
Partir não é deixar de ser: partir pode ser como começar um outro sentido.
Você partiu e, partindo-nos todos ao meio, sempre continuou, pelo menos para mim, a ser inteiro. Você, o mais inteiro de todos os homens.
Partir não é nunca deixar de ser: olha tudo o que você tem sido, mesmo ausente, mesmo tão longe, mesmo estando sem estar.
A voce, que partiu mas não foi partido: eu espero que, ainda que partindo, estejas a caminhar. Olho de longe os seus passos de pés abertos, vendo aonde eles vão te levar. Você, que vai, parte mas continua: partir não é deixar de ser. E, você, só tem sido. Tanto.
29 de out. de 2017
19 de out. de 2017
De repente, uma batida na porta
Era de repente, e era uma batida na porta.
Uma batida na porta tinha todos os sons bonitos que eu ouvira na vida: a música dos meus grupos musicais, a sua voz do seu jeito, os sotaques que eu achava bonito, as palavras que eu ouvi e me marcaram, o caminhar dos passos das pessoas que me inspiram e o barulho do vento num dia frio à noite.
Uma batida na porta era algo tão suave que eu até esquecia que existia, que viria, que chegava. Era também tão intensa - mas nunca pesava, porque sempre leve - que me abria os olhos e me fazia olhar.
Uma batida na porta chegou num dia que eu nem sabia que existia: mas estava lá.
Eu estava rodeando o quarteirão, cantando do meu jeito aquelas meia melodias que soavam inteiras, segurando um copo d'água na mão, pesquisando as estatísticas do governo, planejando a próxima viagem, sentido todo o sentimento que cabia dentro de mim, pondo a roupa para lavar, dirigindo meu carro até o supermercado, correndo à noite, dormindo de madrugada, visitando a livraria, às vezes ficando indignada, indo ao cinema toda semana, escrevendo uma coisa ou outra... - mas o mais que eu estava fazendo quando chegara a batida na porta era vivendo.
Uma batida na porta veio do lado de lá: antes que ela visse que eu a vira eu já estava olhando.
E sentindo, e pensando, e pedindo, e desejando, e esperando, e desistindo, e acreditando, e criando, e esquecendo, e duvidando, e o que eu mais fazia: eu estava vivendo.
Uma batida na porta nem parece, mas tem uma cor: é azul.
Uma batida na porta nem parece, mas aparece.
Uma batida na porta é.
Uma batida na porta tinha todos os sons bonitos que eu ouvira na vida: a música dos meus grupos musicais, a sua voz do seu jeito, os sotaques que eu achava bonito, as palavras que eu ouvi e me marcaram, o caminhar dos passos das pessoas que me inspiram e o barulho do vento num dia frio à noite.
Uma batida na porta era algo tão suave que eu até esquecia que existia, que viria, que chegava. Era também tão intensa - mas nunca pesava, porque sempre leve - que me abria os olhos e me fazia olhar.
Uma batida na porta chegou num dia que eu nem sabia que existia: mas estava lá.
Eu estava rodeando o quarteirão, cantando do meu jeito aquelas meia melodias que soavam inteiras, segurando um copo d'água na mão, pesquisando as estatísticas do governo, planejando a próxima viagem, sentido todo o sentimento que cabia dentro de mim, pondo a roupa para lavar, dirigindo meu carro até o supermercado, correndo à noite, dormindo de madrugada, visitando a livraria, às vezes ficando indignada, indo ao cinema toda semana, escrevendo uma coisa ou outra... - mas o mais que eu estava fazendo quando chegara a batida na porta era vivendo.
Uma batida na porta veio do lado de lá: antes que ela visse que eu a vira eu já estava olhando.
E sentindo, e pensando, e pedindo, e desejando, e esperando, e desistindo, e acreditando, e criando, e esquecendo, e duvidando, e o que eu mais fazia: eu estava vivendo.
Uma batida na porta nem parece, mas tem uma cor: é azul.
Uma batida na porta nem parece, mas aparece.
Uma batida na porta é.
2 de out. de 2017
E se amanhã o medo
E se amanhã o medo?
Parece que eu nem terminei de falar, mas é frase completa.
O som da entonação nos diria que é pergunta feita. Mas eu nem ouso - nem ouso - perguntar.
E se amanhã o medo ... eu paro e olho uma rua ali na esquina que é quase aqui agora.
E se amanhã o medo ... eu viro para o meu lado esquerdo, sigo reto e não caminho. Dei uns passos cor azul-piscina, abaixei o olhar. Era amanhã de novo, mas parecia hoje em dia.
Hoje em dia, que é quase de noite: olho a hora no relógio. Já reparou como as horas são sempre uma, sempre únicas e sempre singulares? Ainda que sejam duas horas, essa hora é só uma: ela é só ela. Inteirinha. Ainda que seja um quarto de hora. Ou meio dia. Ou quinze para as três. E assim, inteiros, somos todos nós - alguns, mais do que os outros. E, entre esses alguns, você e eu.
Mas vamos voltar para o amanhã e o medo que está hoje: o medo não é, mas ele está. Está aqui neste momento. Está estático. Anda em ondas em seu movimento. Vem e bate de repente, nos sacode até nos acordar: veja e olha, diz o medo.
Quando eu paro em uma esquina, eu paro e penso: e se amanhã o medo?
E se amanhã amanhecer de dia, bem na hora em que eu acordar? E se eu pisar na grama e senti-la? E se eu atravessar a rua enquanto os carros estão parados? E se eu tiver tempo e chance e sensibilidade para olhar os detalhes daquele tom de cor em que foi pintado um muro sem vida? -- Ah! E se amanhã o medo?!
Eu me chamo um nome e sou. Eu sou uma pessoa vivida, viva, vivente e vivaz. Muitos dizem que o verbo é existir, mas eu digo: vá além.
E se o amanhã chegar, eu vou olhar e sentir. Eu vou olhar e parar. Eu vou olhar e repetir o nome enquanto escuto a minha voz.
E se amanhã o medo chegar?
Parece que eu nem terminei de falar, mas é frase completa.
O som da entonação nos diria que é pergunta feita. Mas eu nem ouso - nem ouso - perguntar.
E se amanhã o medo ... eu paro e olho uma rua ali na esquina que é quase aqui agora.
E se amanhã o medo ... eu viro para o meu lado esquerdo, sigo reto e não caminho. Dei uns passos cor azul-piscina, abaixei o olhar. Era amanhã de novo, mas parecia hoje em dia.
Hoje em dia, que é quase de noite: olho a hora no relógio. Já reparou como as horas são sempre uma, sempre únicas e sempre singulares? Ainda que sejam duas horas, essa hora é só uma: ela é só ela. Inteirinha. Ainda que seja um quarto de hora. Ou meio dia. Ou quinze para as três. E assim, inteiros, somos todos nós - alguns, mais do que os outros. E, entre esses alguns, você e eu.
Mas vamos voltar para o amanhã e o medo que está hoje: o medo não é, mas ele está. Está aqui neste momento. Está estático. Anda em ondas em seu movimento. Vem e bate de repente, nos sacode até nos acordar: veja e olha, diz o medo.
Quando eu paro em uma esquina, eu paro e penso: e se amanhã o medo?
E se amanhã amanhecer de dia, bem na hora em que eu acordar? E se eu pisar na grama e senti-la? E se eu atravessar a rua enquanto os carros estão parados? E se eu tiver tempo e chance e sensibilidade para olhar os detalhes daquele tom de cor em que foi pintado um muro sem vida? -- Ah! E se amanhã o medo?!
Eu me chamo um nome e sou. Eu sou uma pessoa vivida, viva, vivente e vivaz. Muitos dizem que o verbo é existir, mas eu digo: vá além.
E se o amanhã chegar, eu vou olhar e sentir. Eu vou olhar e parar. Eu vou olhar e repetir o nome enquanto escuto a minha voz.
E se amanhã o medo chegar?
9 de set. de 2017
O tempo que o tempo tem
Se paro para pensar no tempo que o tempo tem...
Me lembro que ainda ontem era outro dia. Em outro ano, e outra época, na mesma festa e em outro lugar.
O hoje é o ontem que acontece hoje de novo. Ainda ontem isso tudo era amanhã. Mas, hoje, já é hoje.
O tempo que o tempo tem leva consigo um pouco da gente. Mas eu sei que deixa muito de si, e de mim, e do outro, e de nós, e de todos. O mundo inteiro cabe no tempo. O tempo quase que não cabe em si.
Se pensássemos no tempo que o tempo tem... não teríamos mais tempo.
Eu hoje acordei e fui viver tudo de novo. Tudo outra vez. Mas como se fosse o primeiro dia. Todo dia que eu acordo é o primeiro dia.
Eu pensei que dentro de 5 minutos caberia uma eternidade: era setembro e eu ainda não tinha encontrado você, minha amiga, que hoje sente falta de mim. Hoje é setembro de novo, já te encontrei e nos separamos, porque cada um colocou o pé num continente - mas nas aulas de história era um mesmo.
Hoje é setembro e há 7 anos foi setembro de novo. Ano que vem, se a vida chegar, será setembro outra vez, e eu sei que setembro se repetirá até depois que a gente for embora.
Outro dia era esse mesmo dia de hoje, só que outro dia, ainda que do mesmo nome e mesmo número. Fazia um pouco de frio mas eu gostava de sentir um pouco de frio, então eu não vesti blusa de frio alguma - eu estava sendo eu. E chovia. Ou melhor, chuviscava. Havia umas árvores no caminho que eu nunca esqueci a cor: eram verde escuro. Uma bicicleta parada na esquina, e carros estacionados na diagonal. Atrás, havia os prédios de tijolos que eu bati o olho e os vi para sempre: jurei que iria desenhá-los em folha de papel, como eu fazia quando era jovem, mas desenhei mesmo foi na memória. Éramos cinco, depois éramos sei, e então sete. Mas faltava mais um: você, que faria de nós oito, e de mim inteira, e de nós dois quase um, só que dois, porque dois é número inteiro: são duas pessoas inteiras juntas. Você não estava, mas já era presente. Eu já te notava, mas não ousava te olhar. Era então onze horas da noite e você chegaste com um cartaz em mãos: e eu o vi, mas olhei mesmo foi para os seus olhos e o seu cabelo e o seu sorriso e o seu jeito de andar e o tom da sua voz e as palavras que você falava e o modo como você discorria e o seu cheiro que eu sentia. Eu só notei, e continuei sentada no sofá.
O tempo que o tempo tem, penso eu, deve caber dentro de uma caixinha. Eu fico pensando se o tempo tem mãos: que é para se segurar.
Se não, vivemo-lo. Até o último minuto, e todos os segundos, até o último dia da vida, e o que foi ontem, e o que é hoje, e o que já é quase amanhã. Vivamos, enquanto é tempo, o tempo que o tempo tem.
E, enquanto isso, o tempo entre os tempos, aquele no meio do caminho, entre o passado e o futuro: vivamos.
Me lembro que ainda ontem era outro dia. Em outro ano, e outra época, na mesma festa e em outro lugar.
O hoje é o ontem que acontece hoje de novo. Ainda ontem isso tudo era amanhã. Mas, hoje, já é hoje.
O tempo que o tempo tem leva consigo um pouco da gente. Mas eu sei que deixa muito de si, e de mim, e do outro, e de nós, e de todos. O mundo inteiro cabe no tempo. O tempo quase que não cabe em si.
Se pensássemos no tempo que o tempo tem... não teríamos mais tempo.
Eu hoje acordei e fui viver tudo de novo. Tudo outra vez. Mas como se fosse o primeiro dia. Todo dia que eu acordo é o primeiro dia.
Eu pensei que dentro de 5 minutos caberia uma eternidade: era setembro e eu ainda não tinha encontrado você, minha amiga, que hoje sente falta de mim. Hoje é setembro de novo, já te encontrei e nos separamos, porque cada um colocou o pé num continente - mas nas aulas de história era um mesmo.
Hoje é setembro e há 7 anos foi setembro de novo. Ano que vem, se a vida chegar, será setembro outra vez, e eu sei que setembro se repetirá até depois que a gente for embora.
Outro dia era esse mesmo dia de hoje, só que outro dia, ainda que do mesmo nome e mesmo número. Fazia um pouco de frio mas eu gostava de sentir um pouco de frio, então eu não vesti blusa de frio alguma - eu estava sendo eu. E chovia. Ou melhor, chuviscava. Havia umas árvores no caminho que eu nunca esqueci a cor: eram verde escuro. Uma bicicleta parada na esquina, e carros estacionados na diagonal. Atrás, havia os prédios de tijolos que eu bati o olho e os vi para sempre: jurei que iria desenhá-los em folha de papel, como eu fazia quando era jovem, mas desenhei mesmo foi na memória. Éramos cinco, depois éramos sei, e então sete. Mas faltava mais um: você, que faria de nós oito, e de mim inteira, e de nós dois quase um, só que dois, porque dois é número inteiro: são duas pessoas inteiras juntas. Você não estava, mas já era presente. Eu já te notava, mas não ousava te olhar. Era então onze horas da noite e você chegaste com um cartaz em mãos: e eu o vi, mas olhei mesmo foi para os seus olhos e o seu cabelo e o seu sorriso e o seu jeito de andar e o tom da sua voz e as palavras que você falava e o modo como você discorria e o seu cheiro que eu sentia. Eu só notei, e continuei sentada no sofá.
O tempo que o tempo tem, penso eu, deve caber dentro de uma caixinha. Eu fico pensando se o tempo tem mãos: que é para se segurar.
Se não, vivemo-lo. Até o último minuto, e todos os segundos, até o último dia da vida, e o que foi ontem, e o que é hoje, e o que já é quase amanhã. Vivamos, enquanto é tempo, o tempo que o tempo tem.
E, enquanto isso, o tempo entre os tempos, aquele no meio do caminho, entre o passado e o futuro: vivamos.
12 de jul. de 2017
Entre nós dois anda o mundo
Transcrição de coisas pensadas e escritas - só que no meu diário:
Eu queria viver ao teu lado, porque isso significaria não apenas existir.
Queria te abraçar por inteiro, até se desfazer de mim - vai ver, isso é tornar-me eu mesma.
Eu queria ir comprar leite na padaria contigo, porque o leite acabou. Experimentar doces exóticos só porque não têm gosto de nada. Caminhar segurando as suas mãos, ou estar sempre a uma distância em que eu pudesse tocá-las. Eu queria ter o meu cabelo grande só para você tocá-lo, só para você olhar e ver, só para lavá-lo apenas quando tomo banho contigo. Eu queria pintar as unhas só para vê-las descascar e ouvir que você não liga - até gosta.
Eu queria ter você só porque, assim, sou um pouquinho mais eu.
Eu queria que chegasse de noite só para saber que as horas anteriores àquele momento foram vividas ao seu lado.
Queria que você comentasse comigo uma coisa sem importância, só para eu saber o que veem seus olhos e poder notar suas observações sobre o tudo e sobre o nada. Eu queria te encontrar num café no meio da tarde, só para ousar pensar e sentir que o mundo é todo meu.
Eu queria saber o que é passar dificuldades financeiras - mas ao seu lado. Queria virar o pé ao seu lado. Perder as chaves de casa enquanto estivesse contigo. Até quebrar o braço - eu não gostaria, mas teria coragem, se fosse ao seu lado. Ser xingada na estação de metrô. Não entender direito o que o dono da venda da esquina falou. Perder-me em meio às opções no supermercado. Não achar o caminho de volta para um lugar que eu chamaria de casa. Eu queria escolher a profissão errada, cortar o cabelo e me arrepender, quebrar a torneira da cozinha e estourar o encanamento. Queimar o jantar. Nunca ter coragem de ir aos correios sozinha por medo - mas, tudo, ao seu lado.
Eu queria a glória de você participar, e não apenas existir.
De você participar um pouquinho de mim e de quem eu sou. De poder lhe dizer como andam as coisas, ainda que elas não andem. De te contar meus medos só para você rir e eu achar que está tudo bem. Eu queria te dar um livro de presente - aliás, eu queria te dar todos os bons livros de presente. E, em cada um deles, te escrever uma dedicatória só minha, só para você. Queria te comprar comida numa barraca de rua. Queria te mostrar os caminhos alternativos que faço só para fugir do comum - literal e simbolicamente.
Eu queria poder vestir uma roupa e pedir a sua opinião, sabendo que você não dá a mínima. Queria ficar resfriada ao seu lado - ao lado de você, que já ficou resfriado perto de mim.
Eu queria te contar que há pouco comprei o livro da escritora XXX sem sequer saber que ela tem o mesmo nome que XXX. Que coincidência! - e eu nem posso te contar.
Eu queria saber como é o lugar que você mora, entrar na sua casa e te ver viver.
Queria saber como são as janelas e, se há detalhes, como eles são. Se não há, eu os crio. Queria saber se, havendo elevador, você pega a escada. Eu queria saber a cor da roupa que você está usando hoje - ah, como eu queria! E todos os dias eu te perguntaria a cor de novo, e todos os dias - até o amanhã, seriam hoje.
Eu queria saber o nome do xampu que você usa no cabelo, a marca do seu sabão em pó, quantas vezes você mastiga a comida: as coisas triviais são as mais únicas e mais importantes. Elas nos fazem ser quem somos.
Eu queria saber quantas vezes no ano você tomou sorvete. Qual foi a última coisa que você leu. O que acha do governo.
Queria que você me escrevesse: uma carta, um cartão ou apenas meu nome.
Queria que, quando você me lesse, saísse de si e visitasse a mim.
Eu queria que você me conhecesse. Me soubesse. Me entendesse. Me visse. Me sentisse. Me ligasse. Me convidasse. Me dissesse (esses verbos me deixam zonza).
Eu queria que você fosse você. Apenas você, todo e todinho.
Eu queria saber qual é o seu peso, só para compará-lo ao meu. Sabe quanto eu peso? Neste momento, 55kg, mas o meu peso era 52 kg.
Eu queria saber a sua altura, só para eu olhar para as coisas, para os prédios e para as pessoas e saber que você é mais alto - você será sempre o mais alto. E também, para saber se aquelas coisas altas, como nas gôndolas do supermercado, você pegaria para mim - só que na vida.
Eu queria viver ao teu lado, porque isso significaria não apenas existir.
Queria te abraçar por inteiro, até se desfazer de mim - vai ver, isso é tornar-me eu mesma.
Eu queria ir comprar leite na padaria contigo, porque o leite acabou. Experimentar doces exóticos só porque não têm gosto de nada. Caminhar segurando as suas mãos, ou estar sempre a uma distância em que eu pudesse tocá-las. Eu queria ter o meu cabelo grande só para você tocá-lo, só para você olhar e ver, só para lavá-lo apenas quando tomo banho contigo. Eu queria pintar as unhas só para vê-las descascar e ouvir que você não liga - até gosta.
Eu queria ter você só porque, assim, sou um pouquinho mais eu.
Eu queria que chegasse de noite só para saber que as horas anteriores àquele momento foram vividas ao seu lado.
Queria que você comentasse comigo uma coisa sem importância, só para eu saber o que veem seus olhos e poder notar suas observações sobre o tudo e sobre o nada. Eu queria te encontrar num café no meio da tarde, só para ousar pensar e sentir que o mundo é todo meu.
Eu queria saber o que é passar dificuldades financeiras - mas ao seu lado. Queria virar o pé ao seu lado. Perder as chaves de casa enquanto estivesse contigo. Até quebrar o braço - eu não gostaria, mas teria coragem, se fosse ao seu lado. Ser xingada na estação de metrô. Não entender direito o que o dono da venda da esquina falou. Perder-me em meio às opções no supermercado. Não achar o caminho de volta para um lugar que eu chamaria de casa. Eu queria escolher a profissão errada, cortar o cabelo e me arrepender, quebrar a torneira da cozinha e estourar o encanamento. Queimar o jantar. Nunca ter coragem de ir aos correios sozinha por medo - mas, tudo, ao seu lado.
Eu queria a glória de você participar, e não apenas existir.
De você participar um pouquinho de mim e de quem eu sou. De poder lhe dizer como andam as coisas, ainda que elas não andem. De te contar meus medos só para você rir e eu achar que está tudo bem. Eu queria te dar um livro de presente - aliás, eu queria te dar todos os bons livros de presente. E, em cada um deles, te escrever uma dedicatória só minha, só para você. Queria te comprar comida numa barraca de rua. Queria te mostrar os caminhos alternativos que faço só para fugir do comum - literal e simbolicamente.
Eu queria poder vestir uma roupa e pedir a sua opinião, sabendo que você não dá a mínima. Queria ficar resfriada ao seu lado - ao lado de você, que já ficou resfriado perto de mim.
Eu queria te contar que há pouco comprei o livro da escritora XXX sem sequer saber que ela tem o mesmo nome que XXX. Que coincidência! - e eu nem posso te contar.
Eu queria saber como é o lugar que você mora, entrar na sua casa e te ver viver.
Queria saber como são as janelas e, se há detalhes, como eles são. Se não há, eu os crio. Queria saber se, havendo elevador, você pega a escada. Eu queria saber a cor da roupa que você está usando hoje - ah, como eu queria! E todos os dias eu te perguntaria a cor de novo, e todos os dias - até o amanhã, seriam hoje.
Eu queria saber o nome do xampu que você usa no cabelo, a marca do seu sabão em pó, quantas vezes você mastiga a comida: as coisas triviais são as mais únicas e mais importantes. Elas nos fazem ser quem somos.
Eu queria saber quantas vezes no ano você tomou sorvete. Qual foi a última coisa que você leu. O que acha do governo.
Queria que você me escrevesse: uma carta, um cartão ou apenas meu nome.
Queria que, quando você me lesse, saísse de si e visitasse a mim.
Eu queria que você me conhecesse. Me soubesse. Me entendesse. Me visse. Me sentisse. Me ligasse. Me convidasse. Me dissesse (esses verbos me deixam zonza).
Eu queria que você fosse você. Apenas você, todo e todinho.
Eu queria saber qual é o seu peso, só para compará-lo ao meu. Sabe quanto eu peso? Neste momento, 55kg, mas o meu peso era 52 kg.
Eu queria saber a sua altura, só para eu olhar para as coisas, para os prédios e para as pessoas e saber que você é mais alto - você será sempre o mais alto. E também, para saber se aquelas coisas altas, como nas gôndolas do supermercado, você pegaria para mim - só que na vida.
11 de jul. de 2017
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É
Meu deus, e se o mundo despencar? E se a chuva, que era como quase chuviscando, virar tempestade? E, se disso tudo, eu apenas sentir? Se disser que são apenas os meus sentimentos, terei justificativa? Há remédio para tudo isso? Qual o nome que isso deve se chamar? Como é ser assim? O que sou, nesse momento? E as pessoas, o que aconteceu com o que elas eram? E o que se tornaram, há um nome além daquilo, há um nome além de "papai"? O que são as pessoas agora e o que eu achei que elas eram? Como é o nome do azul do mundo neste momento, mesmo?
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Mas, então, tudo é novo de novo, como um choque no rosto, um banho frio, cair do 2o andar, descer as escarradas correndo sem tocar no corrimão, subir as ladeiras da cidade de Belo Horizonte de carro - ufa! que medo!
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Tudo deve estar sendo o que é, penso comigo mais uma vez. E pensarei assim em todas próximas "próximas vezes". A cada momento - a cada 5 minutos, quando sou levada a lembrar. Esqueço, e já lembro de novo. Me distraio, e já sou levada a retomar a realidade que me cerca. Ando um pouco e levo um tapa no rosto. Me levanto, passam alguns segundos e vem o soco no estômago: o estado das coisas neste momento.
A órbita do mundo nem uma vez sequer saiu do seu lugar. Então, está tudo certo - até o que está errado está certo, afinal.
"Tudo deve estar sendo o que é" - esse é o meu mantra diariamente, segundamente, terçamente, minutamente, num tempo inventado, porque perdi o passar dos dias.
Quando olho os seus olhos, vejo o mundo neste momento: tudo deve estar sendo o que é. Seus olhos são claros como a Criação, então não há como eu não entender os momentos. Está exposto, foi me dito, está escrito. Além disso tudo, é o que tem sido vivido. E, para isso, não há escapatória: a vida é o que se é.
As escolhas de um tempo são as escolhas da vida. Porque o que eu escolhi num momento é o que fará a histórias dos próximos dias. Isso tudo me lembra duas coisas: o livre-arbítrio, mas também o tal do destino. Será que isso tudo estava programado?
- - - - - -
Tudo deve estar sendo o que é mesmo.
Respiro fundo.
E milhares de vezes ao dia me lembrarei: "tudo deve estar sendo o que é".
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Mas, então, tudo é novo de novo, como um choque no rosto, um banho frio, cair do 2o andar, descer as escarradas correndo sem tocar no corrimão, subir as ladeiras da cidade de Belo Horizonte de carro - ufa! que medo!
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Tudo deve estar sendo o que é, penso comigo mais uma vez. E pensarei assim em todas próximas "próximas vezes". A cada momento - a cada 5 minutos, quando sou levada a lembrar. Esqueço, e já lembro de novo. Me distraio, e já sou levada a retomar a realidade que me cerca. Ando um pouco e levo um tapa no rosto. Me levanto, passam alguns segundos e vem o soco no estômago: o estado das coisas neste momento.
A órbita do mundo nem uma vez sequer saiu do seu lugar. Então, está tudo certo - até o que está errado está certo, afinal.
"Tudo deve estar sendo o que é" - esse é o meu mantra diariamente, segundamente, terçamente, minutamente, num tempo inventado, porque perdi o passar dos dias.
Quando olho os seus olhos, vejo o mundo neste momento: tudo deve estar sendo o que é. Seus olhos são claros como a Criação, então não há como eu não entender os momentos. Está exposto, foi me dito, está escrito. Além disso tudo, é o que tem sido vivido. E, para isso, não há escapatória: a vida é o que se é.
As escolhas de um tempo são as escolhas da vida. Porque o que eu escolhi num momento é o que fará a histórias dos próximos dias. Isso tudo me lembra duas coisas: o livre-arbítrio, mas também o tal do destino. Será que isso tudo estava programado?
- - - - - -
Tudo deve estar sendo o que é mesmo.
Respiro fundo.
E milhares de vezes ao dia me lembrarei: "tudo deve estar sendo o que é".
9 de jul. de 2017
Algo errado não está certo
Algo errado não está certo: eu já saberia pela temperatura lá fora, pela neblina que embaça a janela do meu carro enquanto dirijo para lugar nenhum. Gosto mesmo é de ficar dirigindo, sem destino - estou me dissipando.
Alguma coisa errada não está certa, e isto sou eu quem estou falando. Falo quando não digo. Quando quero dizer, escrevo.
Algo errado não está certo e já havíamos chegado a essa conclusão no ano da copa do mundo - ele, o amigo, e eu. E o que tínhamos em comum. Sim, nós mesmos, se é o que você pensa. E o que tínhamos em comum era isso: você. Nós dois fomos um dia seus amigos...
Ei, algo errado não está certo: já dizia o meu coração, que não fala, mas assopra.
Algo, esse algo, e então escrevo na última folha do caderno, aquela escondida. Ultimamente, pago para ouvirem o assunto: é o que chamamos de "terapia" - só um bem entendido do assunto para te entender, ligar os pontos e me convencer.
Divago como se não houvesse amanhã porque, quando o amanhã chega, chamamo-o de hoje -- eu, definitivamente, não sei conjugar verbo e caminharei assim: sem dominar meu próprio idioma, que me domina e me obriga escrever.
Certo não é errado, mas o certo e o errado foram criados. Salva aquele que estuda antropologia e emprega o relativismo a seu favor: tudo é relativo, mas insisto: algo errado não está certo. E dessa vez não usei meu cérebro, do qual sempre faço uso, mas ouvi Eu. Eu, que moro aqui dentro de mim.
Eu, que sou. Enquanto o errado não é o certo.
Algo errado não está certo e a sensação é que apunhalaram a minha mão. Fecharam meus olhos para as belezas que restavam. Taparam a minha boca e perdi o som do seu nome. Meus ouvidos nunca mais vão ouvir a gentileza que é você...
Hey, você: algo errado não está certo.
Alguma coisa errada não está certa, e isto sou eu quem estou falando. Falo quando não digo. Quando quero dizer, escrevo.
Algo errado não está certo e já havíamos chegado a essa conclusão no ano da copa do mundo - ele, o amigo, e eu. E o que tínhamos em comum. Sim, nós mesmos, se é o que você pensa. E o que tínhamos em comum era isso: você. Nós dois fomos um dia seus amigos...
Ei, algo errado não está certo: já dizia o meu coração, que não fala, mas assopra.
Algo, esse algo, e então escrevo na última folha do caderno, aquela escondida. Ultimamente, pago para ouvirem o assunto: é o que chamamos de "terapia" - só um bem entendido do assunto para te entender, ligar os pontos e me convencer.
Divago como se não houvesse amanhã porque, quando o amanhã chega, chamamo-o de hoje -- eu, definitivamente, não sei conjugar verbo e caminharei assim: sem dominar meu próprio idioma, que me domina e me obriga escrever.
Certo não é errado, mas o certo e o errado foram criados. Salva aquele que estuda antropologia e emprega o relativismo a seu favor: tudo é relativo, mas insisto: algo errado não está certo. E dessa vez não usei meu cérebro, do qual sempre faço uso, mas ouvi Eu. Eu, que moro aqui dentro de mim.
Eu, que sou. Enquanto o errado não é o certo.
Algo errado não está certo e a sensação é que apunhalaram a minha mão. Fecharam meus olhos para as belezas que restavam. Taparam a minha boca e perdi o som do seu nome. Meus ouvidos nunca mais vão ouvir a gentileza que é você...
Hey, você: algo errado não está certo.
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