Teu lábio sorriu e não teve jeito: invadiu-me por inteiro, fez-me sentir um leve ardor, aqueceu meu corpo e o mundo inteiro ficou feliz.
Teu lábio sorriu e eu vi: gravei na memória dos meus olhos o que era aquela tamanha beleza.
Teu lábio sorriu e falou para mim: sorria. E eu sorri.
Teu lábio sorriu e o dia no mundo foi assim: as palavras ásperas não eram densas, mas leves, e não mais foram ouvidas; o trem da noite finalmente chegou ao seu destino; tomei meu rumo nas minhas mãos e passei a andar; a jarra de água, que era de vidro, caiu do pedestal e se espatifou sem partir-se ao meio; o sol se pôs porque tudo seguia o seu curso.
Teu lábio, que forma o sorriso mais encantador de que já se teve notícia na história da minha vida, basta sorrir: teu lábio sorriu e o mundo inteiro ficou feliz.
24 de out. de 2016
6 de out. de 2016
Coisas que nunca te disse
Me disseram que eu escrevia como quem segura um lápis e desenha o mundo. E que o meu escrito era bonito.
Até prêmio eu ganhei, passei em provas, em seleções e sobrevivi o mundo. E tudo o que eu fiz foi escrever, como ir me obedecendo.
Um dia eu pensei comigo: mas e as coisas que não falei, como falar assim? E, então, me veio a minha mão com uma ideia: basta escrever.
E assim surgiram as coisas que nunca te disse.
Coisas que nunca te disse são aqueles exatos minutos no tempo em que olhei e te vi: parecia um sol, até no cabelo. São os formatos das palavras que saíam da minha boca, cada uma ao seu som. É o cuidado com que segurei o seu braço, a ponte da vida. É cada preparo que eu não fiz. Sou eu com o meu jeito de me entregar a você, sem a timidez de me revelar. É o aroma que vez ou outra passa despercebido na minha frente e me faz parar.
Há coisas que nunca te disse, mas você bem sabe quais são: todas elas. Porque são tudo o que sou e estou e pensei e olhei e vi e vivi. Era cada pedacinho de mim querendo se revelar no escuro. Essas são as coisas que nunca te disse: eram todas e cada uma delas.
E, das coisas que nunca te disse, pesam mais as que eu te escreveria. Porque eu te escreveria o seu rosto como ele é para mim, te escreveria os seus olhos (porque você vê com eles, mas não os vê; sou eu que os encaro em estado total de encantamento), te escreveria como é o toque das suas mãos. Eu te escreveria o jeito como você anda, te escreveria o modo como você fala certas palavras com seu sotaque, te escreveria a paisagem de um lugar qualquer em que fomos, visto aos meus olhos.
A você, escreveria meus versos curtos e obscuros, mas cheios de significado. Escreveria a cor do céu numa noite em que a lua aparece e eu a noto porque, quando ela sorri, me lembra você. Eu te escreveria poesias que fiz na hora, no momento e no mundo em que conheci você. E também te escreveria todas as poesias que foram feitas antes de mim pelos grandes poetas. Copiaria com letra desenhada por todo carinho do mundo, só para você entender meu jeito de escrever. Tudo para você ler o que eu tenho a dizer.
Eu te escreveria. Escreveria você. Escreveria eu, para você. Escreveria-me toda, revelando-me sem notar.
E das coisas que te disse, eu copiaria trechos só para você lembrar de nunca esquecer: ei, você. Você é tão você que me é único.
E das coisas que nunca te disse - ah! - nessa hora eu seria tomada por um suspiro profundo, porque escrever exige concentração, mas meu coração entra no meio do caminho!
Há coisas que nunca te disse: e eu as diria para você mil vezes. Falaria bem baixinho e pausadamente, para ecoar nos dias da sua vida. E, depois, te escreveria: para ecoar nos minutos do tempo que lhe foi dado. Para nunca deixar de existir: afinal, o que está escrito é.
Por isso, as coisas que eu te disse, e ainda as que nunca te disse, na verdade, eu te escreveria.
Até prêmio eu ganhei, passei em provas, em seleções e sobrevivi o mundo. E tudo o que eu fiz foi escrever, como ir me obedecendo.
Um dia eu pensei comigo: mas e as coisas que não falei, como falar assim? E, então, me veio a minha mão com uma ideia: basta escrever.
E assim surgiram as coisas que nunca te disse.
Coisas que nunca te disse são aqueles exatos minutos no tempo em que olhei e te vi: parecia um sol, até no cabelo. São os formatos das palavras que saíam da minha boca, cada uma ao seu som. É o cuidado com que segurei o seu braço, a ponte da vida. É cada preparo que eu não fiz. Sou eu com o meu jeito de me entregar a você, sem a timidez de me revelar. É o aroma que vez ou outra passa despercebido na minha frente e me faz parar.
Há coisas que nunca te disse, mas você bem sabe quais são: todas elas. Porque são tudo o que sou e estou e pensei e olhei e vi e vivi. Era cada pedacinho de mim querendo se revelar no escuro. Essas são as coisas que nunca te disse: eram todas e cada uma delas.
E, das coisas que nunca te disse, pesam mais as que eu te escreveria. Porque eu te escreveria o seu rosto como ele é para mim, te escreveria os seus olhos (porque você vê com eles, mas não os vê; sou eu que os encaro em estado total de encantamento), te escreveria como é o toque das suas mãos. Eu te escreveria o jeito como você anda, te escreveria o modo como você fala certas palavras com seu sotaque, te escreveria a paisagem de um lugar qualquer em que fomos, visto aos meus olhos.
A você, escreveria meus versos curtos e obscuros, mas cheios de significado. Escreveria a cor do céu numa noite em que a lua aparece e eu a noto porque, quando ela sorri, me lembra você. Eu te escreveria poesias que fiz na hora, no momento e no mundo em que conheci você. E também te escreveria todas as poesias que foram feitas antes de mim pelos grandes poetas. Copiaria com letra desenhada por todo carinho do mundo, só para você entender meu jeito de escrever. Tudo para você ler o que eu tenho a dizer.
Eu te escreveria. Escreveria você. Escreveria eu, para você. Escreveria-me toda, revelando-me sem notar.
E das coisas que te disse, eu copiaria trechos só para você lembrar de nunca esquecer: ei, você. Você é tão você que me é único.
E das coisas que nunca te disse - ah! - nessa hora eu seria tomada por um suspiro profundo, porque escrever exige concentração, mas meu coração entra no meio do caminho!
Há coisas que nunca te disse: e eu as diria para você mil vezes. Falaria bem baixinho e pausadamente, para ecoar nos dias da sua vida. E, depois, te escreveria: para ecoar nos minutos do tempo que lhe foi dado. Para nunca deixar de existir: afinal, o que está escrito é.
Por isso, as coisas que eu te disse, e ainda as que nunca te disse, na verdade, eu te escreveria.
3 de out. de 2016
Ao sul de lugar nenhum
Então aquilo era o sul. Era lugar nenhum. Era o sul de lugar nenhum.
Isso é o que pensava todas as vezes que arrumava a mala, que era mais uma mochila com pouca roupa, porque se salvava (do inglês, "save"; do português, se guardava?) e se permitia para pessoas especiais e em ocasiões especiais, que eram as ocasiões do dia a dia da sua vida.
Então aquilo era ao sul de lugar nenhum, pensara ela. E pensava assim todas as vezes até não querer pensar mais e não poder sentir mais porque queria mesmo apressar os passos que sempre a levariam na direção contrária - contrária a aquilo ali.
Então estava indo ao sul de lugar nenhum: de onde as pessoas vinham, onde esteve mas para onde nunca mais voltou ou existiu. Não era possível existir ali, porque, em seu mundo, existir implicava viver.
Ao sul de lugar nenhum as pessoas vestiam-se iguais, e pensavam iguais, e sequer pensavam. Falavam a mesma língua mas, no final, ninguém falava nada. Todos olhavam na mesma direção sem notarem a própria sombra. Mas então nasceu um dia um ovo ou uma galinha? - não importa a ordem, pois o que vale mesmo é o conhecimento e a indagação que isso gera - não ali, em lugar nenhum, obviamente.
Um dia eu nasci e ali estava: ao sul de lugar nenhum. E então era assim que chamava aquele lugar sombrio que um dia pintou a história mas que nunca habitou coração e, por isso, jamais seria considerado um lugar porque simplesmente não existia.
Se duvidas, pegue um mapa: tente achar esse "lugar nenhum" e verás, simplesmente, que não existe.
Avante, sigamos em frente.
Isso é o que pensava todas as vezes que arrumava a mala, que era mais uma mochila com pouca roupa, porque se salvava (do inglês, "save"; do português, se guardava?) e se permitia para pessoas especiais e em ocasiões especiais, que eram as ocasiões do dia a dia da sua vida.
Então aquilo era ao sul de lugar nenhum, pensara ela. E pensava assim todas as vezes até não querer pensar mais e não poder sentir mais porque queria mesmo apressar os passos que sempre a levariam na direção contrária - contrária a aquilo ali.
Então estava indo ao sul de lugar nenhum: de onde as pessoas vinham, onde esteve mas para onde nunca mais voltou ou existiu. Não era possível existir ali, porque, em seu mundo, existir implicava viver.
Ao sul de lugar nenhum as pessoas vestiam-se iguais, e pensavam iguais, e sequer pensavam. Falavam a mesma língua mas, no final, ninguém falava nada. Todos olhavam na mesma direção sem notarem a própria sombra. Mas então nasceu um dia um ovo ou uma galinha? - não importa a ordem, pois o que vale mesmo é o conhecimento e a indagação que isso gera - não ali, em lugar nenhum, obviamente.
Um dia eu nasci e ali estava: ao sul de lugar nenhum. E então era assim que chamava aquele lugar sombrio que um dia pintou a história mas que nunca habitou coração e, por isso, jamais seria considerado um lugar porque simplesmente não existia.
Se duvidas, pegue um mapa: tente achar esse "lugar nenhum" e verás, simplesmente, que não existe.
Avante, sigamos em frente.
12 de set. de 2016
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
Hoje, como em alguns dias, me pego pensando: era uma aprendizagem ou um livro de prazeres?
O rosto desenhado como pela mão de um artista, o cabelo que caía de lado mas não o impedia de ler o livro, a mão que segurou a minha, as pernas moldadas pelo andar de uma bicicleta, os olhos que transpareciam seu também lindo lado de dentro, as marcas pequenas sempre visíveis espalhadas por todo o corpo e, então, o sorriso: seria aquilo tudo uma aprendizagem? Porque mais parecia um livro de prazeres!
E tudo o que foi feito e dito, e não feito e calado, e acontecido e vivido, e criado e postergado. Era tudo uma aprendizagem que um dia eu aprenderia, mas, naquele momento, soava tanto como um livro de prazeres!
Uma mão leve mas pesada a me levar pelos caminhos que iria, uma voz que parecia vir lá de um outro lado do mundo, um sotaque carregado que todo mundo percebia mas eu simplesmente achava lindo. Meu coração se derretia e eu só pensava que aquilo era o livro dos prazeres: há tanto prazer em ler você, que vou até te chamar de "meu livro"!
Tudo na vida é uma aprendizagem ou um livro dos prazeres. Hoje, sei que a minha aprendizagem foi também o meu maior prazer, como o ápice do viver. Algo intransponível que tento contar até hoje para quem me sou - eu, que mudei mas ainda mantenho a minha essência.
Tudo que passa na vida a gente olha e pergunta: é uma aprendizagem? Ou é um livro dos prazeres?
Mas você, ah você, você foi a mais prazerosa aprendizagem que me apareceu na vida, e até hoje escrevo lições no meu caderno.
E, então: você - uma aprendizagem, ou o livros dos prazeres? ;)
O rosto desenhado como pela mão de um artista, o cabelo que caía de lado mas não o impedia de ler o livro, a mão que segurou a minha, as pernas moldadas pelo andar de uma bicicleta, os olhos que transpareciam seu também lindo lado de dentro, as marcas pequenas sempre visíveis espalhadas por todo o corpo e, então, o sorriso: seria aquilo tudo uma aprendizagem? Porque mais parecia um livro de prazeres!
E tudo o que foi feito e dito, e não feito e calado, e acontecido e vivido, e criado e postergado. Era tudo uma aprendizagem que um dia eu aprenderia, mas, naquele momento, soava tanto como um livro de prazeres!
Uma mão leve mas pesada a me levar pelos caminhos que iria, uma voz que parecia vir lá de um outro lado do mundo, um sotaque carregado que todo mundo percebia mas eu simplesmente achava lindo. Meu coração se derretia e eu só pensava que aquilo era o livro dos prazeres: há tanto prazer em ler você, que vou até te chamar de "meu livro"!
Tudo na vida é uma aprendizagem ou um livro dos prazeres. Hoje, sei que a minha aprendizagem foi também o meu maior prazer, como o ápice do viver. Algo intransponível que tento contar até hoje para quem me sou - eu, que mudei mas ainda mantenho a minha essência.
Tudo que passa na vida a gente olha e pergunta: é uma aprendizagem? Ou é um livro dos prazeres?
Mas você, ah você, você foi a mais prazerosa aprendizagem que me apareceu na vida, e até hoje escrevo lições no meu caderno.
E, então: você - uma aprendizagem, ou o livros dos prazeres? ;)
8 de set. de 2016
The Munich Mannequins
Perfection is terrible, it cannot have children
Cold as snow breath, it tamps the womb
[...]
Unloosing their moons, month after month, to no purpose.
The blood flood is the flood of love,
The absolute sacrifice.
It mean: no more idols but me,
Me and You.
So, in their sulfur loveliness, in their smiles
The mannequins lean tonight
In Munich, morgue between Paris and Rome,
[...]
[...]
(by Sylvia Plath)
Those eyes I noticed last Saturday, I had actually seen them two years ago. I had stared when they were not seeing, only looking - those most beautiful eyes, so bright.
We'd just stare, and that was two years ago. And we'd only talk to our common friend, and that was all.
As I look at his eyes, my eyes go through some old pics and I feel nothing - cold as snow breath I am. And I look at another cold snow breath, much whiter than me, but you wouldn't say so - but no. Oh, that's his Aryan soul - but no!
Those bright clear eyes showed me the way to the Munich mannequins as I looked through my old pics. They are nothing but mannequins. Them, the Munich mannequins...
Danke, obrigada, thank you, and, most of all, Merci.
Cold as snow breath, it tamps the womb
[...]
Unloosing their moons, month after month, to no purpose.
The blood flood is the flood of love,
The absolute sacrifice.
It mean: no more idols but me,
Me and You.
So, in their sulfur loveliness, in their smiles
The mannequins lean tonight
In Munich, morgue between Paris and Rome,
[...]
[...]
(by Sylvia Plath)
Those eyes I noticed last Saturday, I had actually seen them two years ago. I had stared when they were not seeing, only looking - those most beautiful eyes, so bright.
We'd just stare, and that was two years ago. And we'd only talk to our common friend, and that was all.
As I look at his eyes, my eyes go through some old pics and I feel nothing - cold as snow breath I am. And I look at another cold snow breath, much whiter than me, but you wouldn't say so - but no. Oh, that's his Aryan soul - but no!
Those bright clear eyes showed me the way to the Munich mannequins as I looked through my old pics. They are nothing but mannequins. Them, the Munich mannequins...
Danke, obrigada, thank you, and, most of all, Merci.
6 de set. de 2016
Condição
Qual a condição?
"Eu sou a condição", pensei.
...
Muitas pessoas acham que amor de pai e mãe é incondicional, mas enganam-se: ama-se os filhos porque, estes, como tais, estão na condição. Na condição de filhos.
E se não fossem seus filhos, amaria-os com amor? Sem condições? Amor incondicional?
...
Na rua da vida passou uma placa escrita. Fitei-a com os olhos e li. A lição eu já sabia.
Qual a condição para ser você? É que quando você nasceu depositaram em ti tudo o que não haviam sido e não tiveram. E você se pergunta: mas se é apenas sendo. Então, vá ser e assim será. E colocou-se aqui o ponto final.
A condição da vida é não estar contida.
Em qual condição você poderia ser você? Em qual condição eu me seria eu? E como ser-me toda minha? Eu, que nasci na condição de filha, pergunto-me ao olhar minha imagem, que também sou eu, refletida no espelho. Há de se olhar para dentro de si, diriam. Mas é que não vejo nada além de mim. Então, tire-se do seu caminho. Mas não se deixe ser abraçada pelos braços do polvo de uma condição. Digo isso porque hoje li Medusa, de Sylvia Plath, e lembrei de Aurelia, a mãe. Antes, havia lido Daddy e lembrado de Otto, o pai. Mas não apenas dele: ach, du - You.
...
Em qual condição eu estaria? Ser eu mesma já não seria condição? É que, se sou eu, sou filha. Mas, não: deve-se ser plateia, ouvidos, uma mulher sem cérebro, um manequim sem coração, eleitorado, governanta, aplausos, microfone, assinatura, concordância dos tempos verbais, gratidão, um lugar ao lado, cinco minutos no relógio, cinco reais a hora, exatidão.
...
"Que o amor do meu pai é condicional, a mais pequena desilusão e perde-se". (Ana de Amsterdam)
"Eu sou a condição", pensei.
...
Muitas pessoas acham que amor de pai e mãe é incondicional, mas enganam-se: ama-se os filhos porque, estes, como tais, estão na condição. Na condição de filhos.
E se não fossem seus filhos, amaria-os com amor? Sem condições? Amor incondicional?
...
Na rua da vida passou uma placa escrita. Fitei-a com os olhos e li. A lição eu já sabia.
Qual a condição para ser você? É que quando você nasceu depositaram em ti tudo o que não haviam sido e não tiveram. E você se pergunta: mas se é apenas sendo. Então, vá ser e assim será. E colocou-se aqui o ponto final.
A condição da vida é não estar contida.
Em qual condição você poderia ser você? Em qual condição eu me seria eu? E como ser-me toda minha? Eu, que nasci na condição de filha, pergunto-me ao olhar minha imagem, que também sou eu, refletida no espelho. Há de se olhar para dentro de si, diriam. Mas é que não vejo nada além de mim. Então, tire-se do seu caminho. Mas não se deixe ser abraçada pelos braços do polvo de uma condição. Digo isso porque hoje li Medusa, de Sylvia Plath, e lembrei de Aurelia, a mãe. Antes, havia lido Daddy e lembrado de Otto, o pai. Mas não apenas dele: ach, du - You.
...
Em qual condição eu estaria? Ser eu mesma já não seria condição? É que, se sou eu, sou filha. Mas, não: deve-se ser plateia, ouvidos, uma mulher sem cérebro, um manequim sem coração, eleitorado, governanta, aplausos, microfone, assinatura, concordância dos tempos verbais, gratidão, um lugar ao lado, cinco minutos no relógio, cinco reais a hora, exatidão.
...
"Que o amor do meu pai é condicional, a mais pequena desilusão e perde-se". (Ana de Amsterdam)
29 de ago. de 2016
O céu sobre os ombros
Quando vejo o caminho ainda úmido, nuvens pesadas e cinzas, prestes a desabar em chuva, paro e penso: é o céu sobre os ombros.
E, assim que começo o caminho e meus passos começam a se ajeitar, toda chuva cai em mim e, num suspiro de sorriso, só tenho a declarar: sim, era o céu sobre os ombros.
Eu já tive o céu ao redor, na frente, atrás e do lado. Mas, confesso, o que mais gosto é quando olho e vejo o céu sobre os ombros.
Porque o céu sobre os ombros, ora visto como o peso nas costas, é o abraço que veio sobre mim. É a lembrança do potencial guardado, é a piscadela rápida enquanto subo correndo uma escada. É esse, sim, o céu sobre os ombros: leve como uma ventania assustadora. Ah.
Eu já tive o céu sobre os ombros e ainda o tenho, mesmo que eu o esqueça de carregar. Lembro de uma vez, que na verdade foram anos, e finalmente o dia que chegou. Lembro de dar 10 passos, olhar para cima, ver um monte de janelas num prédio e falar: "então é aqui". E abrir um sorriso pronto para me levar para o melhor a me esperar.
Eu uma vez tive o céu sobre os ombros, naquela vez em que estive sentada de costas para uma mesa que continha uma gotinha de céu. Tive o céu sobre os ombros naquela manhã que já era quase de tarde e, de ressaca, espiava o olhar mais esperado sobre mim. Tive o céu sobre os ombros quando desci e fui jantar: entre tantas pessoas, a convidada era eu.
O céu sobre os ombros abraçou-me quando, num dia vazio, procurou por eles mas acharam a mim. Falou comigo, e de novo e de novo. E toda conversa virou um novo suspiro, que se alongou pela noite, que recomeçou no outro dia e que durou quase um vida inteira tamanha a sua intensidade.
Eu tive o céu sobre os ombros quando me aventurei a pedir que me levasse em uma aventura: entrar naquele local abandonado, do qual eu morria de medo e só poderia aventurá-lo se estivesse na melhor das companhias: você. Funcionou: nunca entramos naquele lugar, mas estivemos na companhia um do outro por outros vários lugares abandonados que agora eram cheios da gente.
Eu tenho o céu sobre os ombros e o vejo sempre que olho para cima. Vejo-o sempre também quando olho para o lado e, principalmente, quando olho para dentro de mim. Reconheço-o quando leio meus cadernos, quando desenho uma letra ou quando te envio um pensamento meu cheio de inspiração que chega até o outro lado do mundo. Tive e tenho o céu sobre os ombros sempre que estive no melhor de mim e no melhor das pessoas, sendo elas as pessoas certas.
O céu sobre os ombros tomou conta de mim: desceu aqui na Terra e me abraçou num abraço. Falou todas as palavras que eu queria ouvir (eu amo ler palavras - eu vejo palavras em tudo, até no que não é palavra mas desenho). Me deu um beijo e disse-me para perder o juízo sem medo de me encontrar. Me jogou do precipício e esteve lá embaixo para me resgatar. Olhou através de mim e viu além. Me encarou nos olhos sem sequer piscar. Me puxou o cabelo a fim de me lembrar quem sou. Fez tudo o que foi feito para mim desde o dia da Criação com muito carinho. Falou grave como o som do chão, fez-me sentir o cheiro de todas as coisas ao mesmo tempo de uma só vez e gargalhou no último capítulo.
O céu sobre os ombros toma conta de mim. Confesso que muitas vezes esqueço de olhar para ele, pois dentro dele eu moro e vou seguindo como se ao menos pudesse ficar perdida. O céu sobre os ombros veio cá e me puxou.
Eu tenho o céu sobre os ombros e o dia que eu mais gosto na vida é quando eu olho para ele, ele olha para mim, nos reconhecemos e, então, numa piscadela, inicio minha nova história.
Quantas histórias há por vir? :)
E, assim que começo o caminho e meus passos começam a se ajeitar, toda chuva cai em mim e, num suspiro de sorriso, só tenho a declarar: sim, era o céu sobre os ombros.
Eu já tive o céu ao redor, na frente, atrás e do lado. Mas, confesso, o que mais gosto é quando olho e vejo o céu sobre os ombros.
Porque o céu sobre os ombros, ora visto como o peso nas costas, é o abraço que veio sobre mim. É a lembrança do potencial guardado, é a piscadela rápida enquanto subo correndo uma escada. É esse, sim, o céu sobre os ombros: leve como uma ventania assustadora. Ah.
Eu já tive o céu sobre os ombros e ainda o tenho, mesmo que eu o esqueça de carregar. Lembro de uma vez, que na verdade foram anos, e finalmente o dia que chegou. Lembro de dar 10 passos, olhar para cima, ver um monte de janelas num prédio e falar: "então é aqui". E abrir um sorriso pronto para me levar para o melhor a me esperar.
Eu uma vez tive o céu sobre os ombros, naquela vez em que estive sentada de costas para uma mesa que continha uma gotinha de céu. Tive o céu sobre os ombros naquela manhã que já era quase de tarde e, de ressaca, espiava o olhar mais esperado sobre mim. Tive o céu sobre os ombros quando desci e fui jantar: entre tantas pessoas, a convidada era eu.
O céu sobre os ombros abraçou-me quando, num dia vazio, procurou por eles mas acharam a mim. Falou comigo, e de novo e de novo. E toda conversa virou um novo suspiro, que se alongou pela noite, que recomeçou no outro dia e que durou quase um vida inteira tamanha a sua intensidade.
Eu tive o céu sobre os ombros quando me aventurei a pedir que me levasse em uma aventura: entrar naquele local abandonado, do qual eu morria de medo e só poderia aventurá-lo se estivesse na melhor das companhias: você. Funcionou: nunca entramos naquele lugar, mas estivemos na companhia um do outro por outros vários lugares abandonados que agora eram cheios da gente.
Eu tenho o céu sobre os ombros e o vejo sempre que olho para cima. Vejo-o sempre também quando olho para o lado e, principalmente, quando olho para dentro de mim. Reconheço-o quando leio meus cadernos, quando desenho uma letra ou quando te envio um pensamento meu cheio de inspiração que chega até o outro lado do mundo. Tive e tenho o céu sobre os ombros sempre que estive no melhor de mim e no melhor das pessoas, sendo elas as pessoas certas.
O céu sobre os ombros tomou conta de mim: desceu aqui na Terra e me abraçou num abraço. Falou todas as palavras que eu queria ouvir (eu amo ler palavras - eu vejo palavras em tudo, até no que não é palavra mas desenho). Me deu um beijo e disse-me para perder o juízo sem medo de me encontrar. Me jogou do precipício e esteve lá embaixo para me resgatar. Olhou através de mim e viu além. Me encarou nos olhos sem sequer piscar. Me puxou o cabelo a fim de me lembrar quem sou. Fez tudo o que foi feito para mim desde o dia da Criação com muito carinho. Falou grave como o som do chão, fez-me sentir o cheiro de todas as coisas ao mesmo tempo de uma só vez e gargalhou no último capítulo.
O céu sobre os ombros toma conta de mim. Confesso que muitas vezes esqueço de olhar para ele, pois dentro dele eu moro e vou seguindo como se ao menos pudesse ficar perdida. O céu sobre os ombros veio cá e me puxou.
Eu tenho o céu sobre os ombros e o dia que eu mais gosto na vida é quando eu olho para ele, ele olha para mim, nos reconhecemos e, então, numa piscadela, inicio minha nova história.
Quantas histórias há por vir? :)
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