12 de abr. de 2016

É de manhã

É de manhã e parece sábado de dia.

Enquanto dirijo pelas ruas, noto como todas as folhas de uma árvore estão em seus devidos lugares. Pingo um ponto na letra "i", sigo em frente, noto tons de verde e penso que poderia ser outono.

É de manhã e estou contigo. É de manhã e desfaço os nós do meu cabelo que nunca existiram. Fecho as cortinas, ou então as abro - tanto faz. Tiro o cisco dos meus olhos, pisco então como se estivesse tomada por uma paixonite aguda e, no fim da rua, vejo que os tons do fim do dia são rosa e laranjado. Parece tão quente e está só acabando o verão.

Quando é de manhã eu faço meu caminho pela praça. Eu avisto o acenar de uma mão. Eu dou significados para os meus entendimentos. Eu fecho a porta e subo a escada correndo, porque nem quero olhar para trás. Eu vejo a cidade de noite e de longe. Eu crio um caderno de recortes que um dia contarão uma história vivida.

É de manhã e por isso estou com fome. Tudo está em seu devido lugar. As coisas são elas mesmas e as cores são do jeito que os nossos olhos as verem. Está tudo tão intuitivo e sei que é isso porque é de manhã. E eu, desse jeito meu, vou sendo eu mesma até o fundo do meu coração porque é de manhã e o relógio parece passar vagarosamente. Eu vi aquela janela sendo fechada, eu desenhei então o parapeito de um prédio, eu corri e abri a porta novamente.

E assim, no instante em que é de manhã, o mundo todo se alinha ao seu contorno e tudo gira ao seu redor. O começo é o mesmo do fim e o pálido é apenas ausência da cor. O que os olhos viram é porque foi vivido e o que os braços não conseguem segurar mora no coração.

É de manhã e estou vivo. Sigamos contentes.

3 de abr. de 2016

Só por hoje e para sempre

Só por hoje e para sempre o meu céu será sempre azul. E o vento que vem do sul acertará sempre o meu rosto como uma brisa que me abraça. E me lembrará dos lugares vividos e de toda vida que ainda há. E eu anotarei memórias, ideias e lembranças como um combustível anterior.

Só por hoje e para sempre eu serei eu mesma. E estarei sempre olhando para as coisas com meus próprios olhos, que são cheio do meu eu interior, por onde me revelo ao mundo. Eu me entrego sem querer, e só me dou para quem me recebe. E o sorriso que levo no canto da boca orienta meus pés e me dá as mãos.

Só por hoje e para sempre honrarei meus desejos, irei manter-me fiel ao meu sinal de dia-tarde-e-noite. E as chamas acesas. E meu lápis de cor que me decoram a alma. A janela alta e antiga de onde vejo o mundo. O entardecer que vem apenas quando tenho sono.

Só por hoje e para sempre manterei o carinho, pois sou toda feita de amor. Para quem me foi especial pelo caminho, eu sou apenas ternura, e assim sempre será. As lembranças gostosas são como um jardim e para sempre ficarão por lá, seja onde for. E terei sempre meus braços estendidos, o sorriso mais sincero, o brilho mais brilhante nos olhos quando olho para a direção de você - ainda que eu não saiba onde ou aonde - e o que eu mais puder oferecer de bom em cada pedacinho de mundo. Porque assim o sou.

Só por hoje e para sempre serei grata pelo fim de tarde frio, pela arquitetura do bairro, por poder enroscar um pé no outro, imaginar um banquete de hambúrgueres, uma sobremesa que não afetará o meu colesterol, um passeio de carro pela cidade vazia e tudo como deveria ser mesmo. Ah!

Só por hoje e para sempre tudo estará em seu lugar, e as pessoas que um dia existiram e significaram sempre serão e o por do sol terá a cor do meu cabelo. Só por hoje e para sempre.

30 de mar. de 2016

O som do coração

Me diz: se o coração falasse, o que ele iria dizer?

Se meu coração falasse, ele teria cheiro de quando sai do banho. Que é cheiro nenhum, mas cheiro da gente. Teria o tamanho de um prédio grandioso em desenho na folha, mas pequeno em altura porque tenho medo. Mudaria de cor, porque tudo depende de como estará o tempo quando as estações do ano, tão raras, se aproximassem. E eu o levaria apertado nas mãos.

O som do coração já foi tão estridente, o som do coração parece um sussurro perto de um mar. Assim, tão longe. Este ruído baixinho é tao presente que toma conta de um pensamento. Dá até para sentir. Me diz uma outra coisa: a gente sente é com o coração?

Se o som do coração falasse, ele sairia da minha boca em forma de letras. E elas seriam escritas caprichosamente no valor do tempo. Todo o detalhe de uma imensidão seria colocado em cada extremidade e, no fim, ninguém entenderia nada porque precisa-se apenas de ver. Ver. Ver é sentir com os olhos, não é?

Se o som do meu coração gritasse, o eco seria longe, para cima, para o norte, mais ao sul. Ficaria mudo. Ele nunca poderia escolher entre leste ou oeste, porque está sempre na metade. Olha, lá vem o soco no estômago. Machuca, então segura firme porque o dia já vem.

Se o som do coração dissesse qualquer coisa eu o proibiria de dizer porque ele entregaria quem sou eu. Por isso, estamos sempre atentos. Olha só os meus olhos - já viu?

Eu acho que o coração da gente quer sempre falar o que quer que a gente seja. E este frase tem duplo sentido. O mundo nunca teve um significado só. E eu vivo em uma língua estrangeira. E sou eu mesma neste momento, mas eu corri há pouco de mim mesma. Isso soa tão repetitivo mas são apenas as palavras, já que estou em falta delas.

Olho nos olhos, mas vejo o meu coração.

28 de mar. de 2016

O sol também se levanta

O sol também se levanta - quando eu abro a janela.

E, isso, porque é assim. E porque é ela, esta menina, que sou eu. E, aquilo, porque me sou. E, quando sinto, já me fui. E, se estou sentido, olho para o lado rapidamente. Quero desviar minha atenção. Quero só ser sem ser. Quero desenhar em uma folha de papel tudo borrado.

E então o sol se levanta!, e venho caminhando pela rua. E troco o abraço, deixo que vejam meus olhos, não me escondo apenas para mim, sendo-me todinha, e ainda abro o meu sorriso. Pois o sol também se levanta quando o céu está azul escuro e parece que vai chover - ah, sim, isto é quando o sol mais se levanta, posso contar nos dedos!

Uma vez eu escrevi em um caderno e o guardei bem guardado que até o perdi. Mas tudo o que foi escrito é.

O sol também se levanta quando ando com meus pés tão leves. Quando observo minhas pequenas mãos. Quando me permito falar sem dizer nada. Quando só respiro sem sentir o cheiro.

E todas as portas se batem, mas é tudo tão raso que destoa e parece que vai apagar mas fica marcado. Deixa-se ir. Volta a ser quem se é. Perde-se um dia inteiro em um livro. Agradece aos pés. Cria uma coragem absurdamente brava e repica o cabelo de modo que ele fica sob os ombros. E dá de ombros, e então deixa para lá.

Sabe, outra vez eu peguei um espelho e vi tudo o que é. Não era o que estava, não era o que seria e não era o que foi. Era apenas o que se é. Eu senti um sentimento tão profundo e grande que ele parecia pesado, como um oceano muito azul escuro, e então eu notei que quando o sol se levanta o mundo é todo azul e que eu escrevo muito esta palavra porque ela é o que sou. E, assim, perdida nas palavras e folhas e letras e palavras de novo vou me sendo e sou-me e sou eu.

Afinal, o sol também se levanta!

29 de fev. de 2016

27 de dez. de 2015

The state of a life

Lately:

"Science is, to me, useless drudgery for no purpose. A vague, superficial understanding of molecules and atoms isn't going to advance my understanding of life."

And, most of all,

"I hate formulas, I don't give a damn about valences, artificial atoms and molecules."
(Letters Home)

Hello, Life. Just saying. :/

26 de out. de 2015

Atrás do pensamento

Atrás do pensamento é como um lugar guardado. Um local que a gente montou e foi morar nele. Um local que sempre existiu sem que a gente se desse conta. Um lugar que guarda um pouquinho da alma da gente enquanto acontece o dia.

Atrás do pensamento é como o meu copo de leite. É um livro em capa de veludo verde escuro a la Wilde, cheio de rimas bonitas que me fazem revirar os olhos. É como o caminho que sempre pego, mas é também o caminho novo que me rejuvenesce o olhar.

Atrás do pensamento é aquele que nunca foi. É aquele que ficou aqui. Sou eu sendo a menina que fui e que sempre hei de ser, porque me transformei em eu mesma - a gente sempre acaba se esbarrando com a gente.

É quando fecho os olhos e espero para ver o que é que vem. Quando recosto a cabeça em um canto e me descanso dos pensamentos, que fogem até chegarem onde você está. É uma onda do mar que vai mas voltou. Volta sempre, toca sinos, estende-se em minha cama e tem preguiça em sair.

Atrás do pensamento mora a pessoa de quem fui mais próxima na vida, as aventuras que vivemos juntas e um caderno que escrevi cheio de significados, pois significava muito. As pessoas crescem e vão embora da gente, mas se deixam ficar. A distância física nunca será maior do que outras distâncias, e isso é um alívio frio e azul anil, mas funciona para o dia de hoje. Só por hoje, só por hoje...

Quando eu contar até três é porque já contei até cinco e já esperei passar. Eu perdi a conta dos números, eu nem olho mais as horas no relógio, eu estou sentada observando o momento agora mesmo.

Atrás do pensamento está eu e está você. Está tudo o que é junto, e muito, e leve, e sensível como uma louça antiga, e fugaz (eu nem sei o que é isto, mas esta palavra me veio agora e pediu para eu a escrever), e vivaz - porque rima -, e com gratidão e precisão e me embaralho toda em me perder nesta estratagema. Céus, quando é que eu vou parar com isso, com esta coisa de brincar com as as coisas escritas? Estou ficando gente grande e preciso aprender a usar as palavras - digo, desaprender. Vou ter que montar azulejos bem escritos, e o mais difícil de tudo: que façam sentido no final. Para isso tenho olhado muito para as fotos de Woolf e de Plath que tenho em minha parede, imaginando que só de olhar para uma coisa dessas a vida faria sentido e eu seria invadida por palavras bonitas, complacentes e cheias de sentido. Continuo olhando.

No momento, preciso pegar um trem e tecer o caminho. Preciso ficar muito tempo acordada e pouco tempo dormindo, e nem tempo para vagar e me distrair do mundo eu tenho. Mas a gente embarca e sobe a escada e se dá conta de que trata-se apenas de mais um vagão.

E, enquanto isso, espirro um jato de perfume em mim, pois o gosto do cheiro me inspira, e eu seguro a minha própria mão, que é o que tenho, e vou seguindo, sabendo que, no fundo e no raso e em tudo o que sou, mora o que está atrás do pensamento.