31 de mar. de 2013

Down by the Salley Gardens


Down by the salley gardens my love and I did meet;
[He] passed the salley gardens with little snow-white feet.
[He] bid me take love easy, as the leaves grow on the tree;
But I, being young and foolish, with [him] would not agree.

In a field by the river my love and I did stand,
And on my leaning shoulder [he] laird [his] snow-white hand.
[He] bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;
But I was young and foolish, and now am full of tears.


Márcia making use of Yeats'.

A dor da saudade

Ei, você: pode para de me visitar em sonho?

Não te dei permissão, não estava consciente, não abri as portas.

É sonho, mas a dor é real.

Como assim você se foi...? Eu apenas gostaria de descobrir como.

O como seria muito importante para eu aprender. Preciso aprender como. Preciso continuar forte. Preciso parar de contar tudo para a minha mãe no sonho. Mas ei, você: pode parar de me visitar em sonho?

Não que eu queira, mas é que a dor é muito forte.

A dor da saudade.

29 de mar. de 2013

Os incompreendidos

A você que não foi entendido: aqui moram os incompreendidos.

A você, que não se entendeu: passou noite, correu o rio, e amanheceu.

Os pássaros cantam como cantavam antes, embora comecem com um tom estridente. Acham que estão nos fazendo um favor quando estão apenas fazendo o seu trabalho.

Um ano na vida passa em um dia, mas houve também aquele dia que pareceu um ano. No nublado de um dia, mora aí a compreensão. Os incompreendidos, que são os outros, não compreendem porque não são.

Somos nós. Não são eles. Sou eu. É você. Eu sou. I am.

E no meio dos escritos que perderam forma transformando-se em sentimento, mora aqui no meu peito este lugar. Este lugar sempre irá existir, porque este lugar é um lugar vazio. Este lugar é ocupado por você, que se foi. Às vezes é preciso ir para sempre estar aqui. Não é mesmo?

Queria você ter se descoberto. Queria você ter falado a voz dos anjos do simbolismo. Tudo na vida é símbolo e ser possuído pelo espírito de um índio não tira jamais o seu charme. Na verdade, tudo isso tem pouca importância porque o sentido já não existe mais, uma vez que há muito se foi.

Foi para não estar vendido. Aquele casaco atrás da porta, não era seu. Foi do seu pai. Foi da força aérea. Foi de uma universidade na Califórnia. Foi da namorada de vida. Foi das drogas e bebidas e cigarros e recaídas. Foi, mais ainda e acima de tudo, das canetas e papéis que chamo eu de diários. Hoje eles transformaram-se no que restou de você.

A incompreensão. Se você tivesse sido ouvido. Se você tivesse conseguido falar. Saiba você que sua imagem sempre existiu aos meus ouvidos. Ah, os incompreendidos. Sabem tanto eles da multidão? Sabem tanto eles da vida? Sabem tanto eles das pequenas coisas? Sabem dar lição?

Hoje em dia tudo está mais "evoluído". Isso, por exemplo, que existiu em você agora tem nome. Seria tratado e domado, mas não curado. Porque as pessoas não são curadas. Elas nascem assim. E assim o são. I am - lembra-se? Poderia agora até trazer para a cena a minha escritora favorita, só para te alegrar, você, que gostava tanto dos meus escritores.

Isso, tem nome. E o nome eu chamo pelo nome. Mas vou deixar para lá. Queria tratar, cuidar e preservar, que era para durar por mais um tempo. O tempo é uma coisa sagrada e, por isso, mística. O tempo não começa e não se acaba, mas o tempo se foi.

A você, meu incompreendido, a quem tanto compreendo e a quem divido minha compreensão, dedico esse escrito, dedico essas palavras que há poucos segundo eram apenas átomos, dedico meus dedos que esforço  fazem e dedico, principalmente, meu pensamento.

No fim de tudo, as pessoas não existem. As pessoas moram em nossos pensamentos e lá elas estão. Apenas lá elas são. - I am -

Aos incompreendidos, era esta a compreensão.

De pouca importância

Em uma cidade grande como essa, ela fica perdida, indecisa em meio à suas opções de escolha que seriam mais úteis se fossem menos. Nessas horas lembrava-se como era difícil decidir, via-se em um abismo e, no fim, culpava seu signo do zodíaco ao contar para a irmã.

No caminho, notava as rodas gigantes. Perguntava-se se faltava muito para chegar, como se fosse possível responder. Torcia para torcidas que não existiam e procurava na loja a camisa de um time de futebol que não deveria estar ali.

Pensava sempre tão mal dos taxistas. Cruzava os dedos de medo e para não trazer azar. Lembrava-se que era sexta-feira santa e que, por isso, nada podia dar errado porque as pessoas devotas estariam rezando no lugar dela.

Ainda, por todo o caminho, perguntava-se se estava indo mesmo para o lugar certo - ela é assim, cheia de perguntas, cheia de respostas. Um shopping, em seu julgamento, jamais seria um lugar certo. Enquanto isso, era distraída pelas palmeiras que enfeitavam e enfeiavam o caminho. Ah, que cheiro de praia. Que roupa de praia. Que tudo de praia! - estou cansada. Não vou adaptar-me à situação e também colocar biquíni. Só dizendo por dizer.

Compraria as coisas o dinheiro? Mas dinheiro também não era uma coisa, e uma coisa inventada? Por que uns tinham tão pouco e outros tinham tão muito e outros tinham mais ou menos? Porque esse negócio de fazer copos de vidro e copos de plástico em vez de definir um só modo sem igual? Ah, as complicações.

Vamos pensar no caminho. Nos corredores sem fim que sempre levam aos mesmos lugares. Nas escadas rolantes que são usadas da forma errada por essas pessoas, os brasileiros. No moço de terno cumprindo o seu dever. Na menina, que sou eu, cumprindo o meu dever também indo lá perguntar, já que o trabalho dele é responder. Vou só para ele sentir-se útil. É que todo mundo é útil. Vamos pensar nos pensamentos calados que não saíram da minha boca e, por isso, não viraram palavras. Nas lojas caríssimas que eu não fui e nem me deixei olhar, porque acho de uma grande falta de respeito. Nas moças que trabalham nas lojas mas são pagas mesmo só para olhar. Olhar para o nada. Deve ser chato ser assim, né? Vestindo cachecol de zebra, então, nem pensar.

Mas ó céus com a sombra feita pelos coqueiros à beira mar onde passam os taxistas: como isso tem pouca importância.

27 de mar. de 2013

As coisas fúteis escondidas

E ela, que é cheia de coisas, frufus e buxinhas. Mas, no momento seguinte, deixa tudo de lado, ainda que leve consigo tudo o que te pertence por merecimento e ordem de nascimento.

Ela, que tem mania por janelas. Que guarda os detalhes que vê com a alma. Que desenha em folhas que mais tarde ficarão perdidas em um dos quartos da casa. Ela, que tem suas opiniões e mantém o seu encanto por azul. Ela, que se deixou fisgar. Se deixou.

E as coias sérias continuarão sérias num tom de melodia com cheiro de melancia. Os edifícios históricos ilustrarão o fundo de sua mente onde moram seus pensamentos e a coleção de liguinhas deixará de existir porque é assim.

Continuarão a inclinação por determinadas comidas, seus medos bobos ignorados, o pavor de aranhas, a nostalgia pelos tempos frios, o jornal que faz parte de uma sala com poltrona. Sim, ficarão sua mania por tênis dos anos 90, sua admiração por jogadores de basquete, sua sintonia com barcos e sua indecisão quanto à escolha do esmalte. O medo de altura é futilidade.

E os centavos gastos com casquinhas de sorvete, estes são de grande importância. Os palavrões que fala, sua mania em andar rápido, sua preguiça por tudo o que é devagar. Parou na ponte para olhar os carros que cruzavam as rodovias, pensou em não pular. Caminharia até a biblioteca onde compraria uma camiseta com a figura de uma bicicleta. Esta, ela deu a ele.

As pessoas que falavam alto ... ah, as pessoas que falavam alto deveriam todas desaparecer! Elas interferem em seus pensamentos, criam garras em suas mãos, impedindo-a de escrever, sorrir ou viver. - Este é apenas um parênteses nessa onda de escrita -

No fundo uma canção de rap, ao lado da cama um cartão de crédito que entrega que ela andou fazendo infinitas compras e, então, o puxão de orelha da irmã, que a lembra que precisa visitá-la. Não teria muita simpatia por aquele país, pois foi nele que aconteceu o massacre da humanidade. Nele e em muitos outros, mas foram todos feitos por aquele povo bonito, loiro e alemão.Oh, como sua irmã mais nova teria antipatia, frente aos inúmeros livros de história que estuda, lê, compra, coleciona e enfeita a casa! E, oh, quantas vezes fora censurada por ela, a sua irmã mais nova, por nutrir sentimento de carinho por este povo que deveria pagar com castigo!

Mas este é assunto para outra prateleira da estante.

Vamos parar por aqui.


26 de mar. de 2013

Dia após dia

A rosa que guardei empedrou-se e virou vidro. A moça na janela virou moça da janela. O lençol foi esticado no varal ao vento e as fechaduras arranhavam pelo caminho.

Enquanto isso, fazia sol. A música do rádio soava como novela aos ouvidos da gente que passava pelas ruas. A névoa que se aproximava não trazia sinal de chuva, mas de poeira. As crianças brincavam no quintal e os animais cercavam os campos de uva.

Uma taça caiu e quebrou. Estilhaços espalharam-se pelo chão. Um pensamento de gramática do português invadiu o pensamento e a costureira prosseguiu com seu trabalho. O carrinho de sorvete era empurrado calmamente enquanto alguns, chamado apenas de alguns, fofocavam na venda da esquina.

Os matos à beira do passeio - ah, quem lembrara dos matos no passeio?! - estavam verdes, olhe só. A igreja com seu sino continuava no mesmo lugar. Ao lado dela, aquela casa com escadas na entrada e, logo à frente, um muro pichado quase a cair.

Água continuava aos montes, tanto assim abundante, embora não fosse considerada uma bebida favorita. Viagens eram feitas, passaportes eram perdidos, bilhetes eram rasgados e sucos de laranja tornavam-se coisa banal. Livros continuariam a ser impressos, no matter what. Pensamentos de um lugar e tempo distante voltariam a invadir sua mente e o painel em que desenhou um dia ficaria velho.

As latas continuariam a fazer aquele barulho insuportável e ela pensaria em como era fútil alguns comentários. As pessoas bregas continuariam a ser bregas porque acreditavam ter estilo, e os avôs manteriam-se constantes no coração dos netos. Enquanto isso, havia também as flores murchas, as flores que secaram e as flores que morreram. Pensava que flores não morrem, flores apenas deixam de existir, como se "apenas" significasse pouca coisa. Oh meu deus, como isso parecia conversa de museu! Vejo só, vamos atravessar a rua!

Constantemente mudava de pensamentos. Constantemente era mudada pelos pensamentos. Frequentemente indagava-se se pensamentos não eram coisas concretas, como essas que são as pessoas com nomes, ou se pensamentos não eram como marionetes comandadas por um deus. Mas não, não poderia ser.

E, vira e mexe, as luzes cruzavam seu caminho, apontando o lugar que não se foi. O dia se tornaria noite e assim por diante. As coisas continuariam coisas, se fossem coisas, e as outras coisas transformariam-se em algo a mais. A primavera seria estação da sensibilidade e o inverno seria estação de profundidade. O outono traria inspiração e o verão seria apenas comemoração no hemisfério norte.

E, enquanto isso, a vida continua.


25 de mar. de 2013

Palavras que soam memórias

Enquanto via o filme sobre nossa cidade, fui pega por um mutirão de palavras:

portas de vidro. estudos. comida. ônibus. caminho. pegadas. campo de futebol americano. como se houvesse alguma diferença. verde. inglês. pubs. longe. história. supermercado. compras. caminhadas. fogo. cinema. mais precisamente, teatro. neve. estrada. rua longa e comprida. uma noite. como muitas outras noites que se repetiram mas não eram iguais, eram só apaixonantes. te dedico. faculdade. frio que corta. línguas. longe. mas tão perto. tão próximo. mas tão distante. sempre aqui. mamãe e papai. vida. feliz. casas abandonadas. bairros perigosos. passeios. fotos. pontes. irmãs. casos. livros. você e eu. eles. todos nós. tudo.

E, como pode ver, não eram só palavras. Também fui pega por expressões. Por frases. Por pensamentos. Por lembranças. Por memórias. A diferença entre memória e lembrança é que esta última vem com o vento e assim vai, rápido. Já a primeira, fica marcada para sempre.

E eu fui pega pelas palavras quando elas nem sabiam que quem as pega e as usa sou eu.