Formosura parecia palavra clássica. Eu nunca a entendi. Mas já vi.
Parecia até que eu a tinha tirado do dicionário.
Formosura é como a forma que a gente tem: alguns se formam, têm forma, são formados, são formosos...
Outros, não. Eu, sim. Eis aqui: a formosura.
Formosura, eu diria, é o contorno do corpo da gente. É ser alto ou ser esperto. É o formato amendoado dos olhos. São as duas pintinhas de sarda que tenho no canto esquerdo ao lado dos olhos. É o meu cabelo quanto acordo com ele bagunçado de manhã.
Formosura é como estar: estou hoje; amanhã, sou.
É também que nem formidade: uma palavra que nem existia. E um dia foi criada. E, criada, passou a existir. Seremos todos formosos um dia? Entraremos todos, então, na mesma forma? Como um bolo? Formados? E sairemos do forno, todos iguais?
Fui me formar longe daqui. Fui ser formosa por ser eu. Fui pegar a formosura da vida em cada gesto meu. Fui dar forma ao que nem existia. Ser formoso é ser inteiro.
Tudo era pura formosura. Cada dia e cada noite e, no intervalo, cada minuto constituinte. Até quando fechava os olhos era formosa. E, quando o via - que formosura ser ele assim tão formoso!
Acho, afinal, que se és formoso, aos meus olhos, é porque gosto da sua forma. E a sua forma, nesse caso, é o que gosto por dentro e por fora de ti. Do fio do cabelo aos dedos do pé, do som da sua voz ao jeito que dormia. Era como o mundo a ser formado diante dos meus olhos; formosura - a forma de você ser.
2 de jul. de 2017
24 de jun. de 2017
If today be sweet
Eram os sábados de manhã. E também as vésperas de sábado. E até o dia depois, que tinha resquícios sabáticos. Sábado era o sétimo dia, mas para mim era sempre o primeiro, ou, quem sabe, o último: qualquer uma dessas colocações o fariam único. Afinal, sete de sábado era também um número primo.
Dessa vez o céu está de um azul escuro, e eu já reparei, com esses meus olhos tão detalhistas a encarar o mundo, que no inverno o azul do céu se impregna mais de si: vívido, como se gritasse que está ali.
If today be sweet, dirijo meu carro cujas portas são depósitos de livros. Só hoje, sábado, comprei cinco. Estaciono num lugar feito só para mim naquele momento, numa sombra que surgiu nem sei de onde e, a passos largos, entro num cinema para assistir filme francês. Todo sábado que é meu é assim.
Se hoje é doce, gravo em um lugar qualquer (alma, coração, mente, caderno, diário ... não importa onde, mas sei que irei sempre lembrar) um senhor de cabelo branco, médico, cuja palestra assisti (eu adoro aprender): o que mais me chamou atenção, além de suas viagens e assertividade, era como falava dos livros. "Aquele livro que li" ou "este livro que estou lendo" e aí nos passava o nome. Aquilo para mim era a mais pura expressão de esperança no mundo. Era como um amor à vida. Era como nunca ter medo de acabar. Em seus, sei lá, oitenta anos, ele ainda lia livros como se não fosse morrer. Será que ficava ansioso para ler o máximo possível já que os dias estavam prestes a acabar? Aquilo sim era a doçura do mundo.
A doçura do mundo... ela apareceu me acenando ali na esquina. Estou sempre distraída com o detalhe dos sons da música no carro, ou observando o ângulo de um prédio se eu tivesse feito arquitetura, ou enxergando a poesia que quiseram apagar. Estou sempre distraída, mas às vezes paro e penso - ou melhor, sinto.
Fui ao supermercado e no caminho havia um vento frio tão meu - eu não poderia ter ficado mais feliz. Comprei sete pães de queijo que, pelas minhas contas, saíram a menos de 30 centavos cada um, e eu pensei como que a vida parecia um milagre incrível. Enquanto isso, no caixa, eu olhava para o outro lado da rua onde havia uma farmácia: ah, quanta possibilidade! Quanta poesia! (acho que estou muito sensível neste momento, como que aberta para o mundo dizer-me e para expressar-me a mim que sou).
O moço da livraria respondeu a minha mensagem hoje de manhã: Eichamann em Jerusalém tinha. O outro livro, não. Mas então eu fui em outro canto abençoado do mundo, as tais livrarias, e encontrei o livro que queria e mais quatro. Sim, hoje foram cinco.
Sábado é a doçura do mundo. É quando o gosto da vida sai doce parecendo salgado. É quando não há culpa e há entrega. É quando somos nós mesmos do nascer ao pôr do sol. É o dia em que se escolhe fazer o que quiser. É como alguém pegando na nossa mão nessa caminhada. É sempre de dia e, quando chega a noite, tudo se renova e se faz novo de novo.
A doçura do mundo.
If today be sweet...
Dessa vez o céu está de um azul escuro, e eu já reparei, com esses meus olhos tão detalhistas a encarar o mundo, que no inverno o azul do céu se impregna mais de si: vívido, como se gritasse que está ali.
If today be sweet, dirijo meu carro cujas portas são depósitos de livros. Só hoje, sábado, comprei cinco. Estaciono num lugar feito só para mim naquele momento, numa sombra que surgiu nem sei de onde e, a passos largos, entro num cinema para assistir filme francês. Todo sábado que é meu é assim.
Se hoje é doce, gravo em um lugar qualquer (alma, coração, mente, caderno, diário ... não importa onde, mas sei que irei sempre lembrar) um senhor de cabelo branco, médico, cuja palestra assisti (eu adoro aprender): o que mais me chamou atenção, além de suas viagens e assertividade, era como falava dos livros. "Aquele livro que li" ou "este livro que estou lendo" e aí nos passava o nome. Aquilo para mim era a mais pura expressão de esperança no mundo. Era como um amor à vida. Era como nunca ter medo de acabar. Em seus, sei lá, oitenta anos, ele ainda lia livros como se não fosse morrer. Será que ficava ansioso para ler o máximo possível já que os dias estavam prestes a acabar? Aquilo sim era a doçura do mundo.
A doçura do mundo... ela apareceu me acenando ali na esquina. Estou sempre distraída com o detalhe dos sons da música no carro, ou observando o ângulo de um prédio se eu tivesse feito arquitetura, ou enxergando a poesia que quiseram apagar. Estou sempre distraída, mas às vezes paro e penso - ou melhor, sinto.
Fui ao supermercado e no caminho havia um vento frio tão meu - eu não poderia ter ficado mais feliz. Comprei sete pães de queijo que, pelas minhas contas, saíram a menos de 30 centavos cada um, e eu pensei como que a vida parecia um milagre incrível. Enquanto isso, no caixa, eu olhava para o outro lado da rua onde havia uma farmácia: ah, quanta possibilidade! Quanta poesia! (acho que estou muito sensível neste momento, como que aberta para o mundo dizer-me e para expressar-me a mim que sou).
O moço da livraria respondeu a minha mensagem hoje de manhã: Eichamann em Jerusalém tinha. O outro livro, não. Mas então eu fui em outro canto abençoado do mundo, as tais livrarias, e encontrei o livro que queria e mais quatro. Sim, hoje foram cinco.
Sábado é a doçura do mundo. É quando o gosto da vida sai doce parecendo salgado. É quando não há culpa e há entrega. É quando somos nós mesmos do nascer ao pôr do sol. É o dia em que se escolhe fazer o que quiser. É como alguém pegando na nossa mão nessa caminhada. É sempre de dia e, quando chega a noite, tudo se renova e se faz novo de novo.
A doçura do mundo.
If today be sweet...
10 de jun. de 2017
Flor dá cada susto
Flor dá cada susto: o botão se fecha - passa primavera, vem o verão, chega o outono e é agora inverno - e, então, quando a gente está passando, sem mais nem menos, assim do nada, a flor se abre.
Flor dá cada susto, faz a gente dá um pulo com o coração. Flor já até morou nele. Flor agora reside em algum lugar por aí.
Flor dá cada susto - flor é substantivo feminino no português. Mas, para mim, flor é substantivo masculino, porque flor, neste caso aqui neste momento, uso para me referir a Você.
Flor é adjetivo: a gente chama quem a gente gosta de flor - isto é, no português fazemos assim.
Falo em línguas, falo inglês. Nunca disse o que seria, porque não falei português.
Flor dá cada susto: olho e vejo uma flor, quando nem mais a via.
Flor é uma coisa assustadora: ora nos assusta, ora é suave.
Flor também é cheirosa e às vezes sinto o cheiro dela lá do outro lado do mundo, que é do mesmo lado, só que atravessando o mar.
Flor assusta tanto.
Flor dá cada susto e eu te chamei de flor. Flor é substantivo, adjetivo, nome próprio, advérbio de tempo e de lugar. Flor é outra língua estrangeira, flor é Você.
Ei, Você, você me é uma florzinha. Ou um florzinho. E a cor da flor é amarela.
Flor, você me dá cada susto.
Flor dá cada susto, faz a gente dá um pulo com o coração. Flor já até morou nele. Flor agora reside em algum lugar por aí.
Flor dá cada susto - flor é substantivo feminino no português. Mas, para mim, flor é substantivo masculino, porque flor, neste caso aqui neste momento, uso para me referir a Você.
Flor é adjetivo: a gente chama quem a gente gosta de flor - isto é, no português fazemos assim.
Falo em línguas, falo inglês. Nunca disse o que seria, porque não falei português.
Flor dá cada susto: olho e vejo uma flor, quando nem mais a via.
Flor é uma coisa assustadora: ora nos assusta, ora é suave.
Flor também é cheirosa e às vezes sinto o cheiro dela lá do outro lado do mundo, que é do mesmo lado, só que atravessando o mar.
Flor assusta tanto.
Flor dá cada susto e eu te chamei de flor. Flor é substantivo, adjetivo, nome próprio, advérbio de tempo e de lugar. Flor é outra língua estrangeira, flor é Você.
Ei, Você, você me é uma florzinha. Ou um florzinho. E a cor da flor é amarela.
Flor, você me dá cada susto.
27 de mai. de 2017
Meio-dia meia-lua
Meio dia parece a luz mais alta no céu: o sol está no trópico que atravessa vidas.
Era meio-dia, mas era meia-luz. Era meio-dia e era quase meia-lua.
Meio-dia não era apenas a hora do relógio: aquela também se chamava doze horas, 12 p.m. e, por ser de dia, eu sempre confundia com a.m. .
Meio-dia era muito mais: era parte de um dia passado, era parte de um dia que passou. Era metade de um dia logo à frente. Mas só metade.
Meio-dia tinha ainda outro significado: meia-visão. Daí meia-luz. E então meia-lua. É quase como que de noite.
Olha e vê: a luz nos seus olhos ao meio-dia do dia não clareia, mas ofusca.
Quem tem ouvidos, ouça: meio-dia parece dia, é quase como luz, mas é meio, é metade. Parece claro, mas traz-lhe escuridão.
Uma vez li no Livro da Vida escrita pela mão do todo poderoso: quem olha para o que acha que é luz, cega.
Era meio-dia, mas era meia-luz. Era meio-dia e era quase meia-lua.
Meio-dia não era apenas a hora do relógio: aquela também se chamava doze horas, 12 p.m. e, por ser de dia, eu sempre confundia com a.m. .
Meio-dia era muito mais: era parte de um dia passado, era parte de um dia que passou. Era metade de um dia logo à frente. Mas só metade.
Meio-dia tinha ainda outro significado: meia-visão. Daí meia-luz. E então meia-lua. É quase como que de noite.
Olha e vê: a luz nos seus olhos ao meio-dia do dia não clareia, mas ofusca.
Quem tem ouvidos, ouça: meio-dia parece dia, é quase como luz, mas é meio, é metade. Parece claro, mas traz-lhe escuridão.
Uma vez li no Livro da Vida escrita pela mão do todo poderoso: quem olha para o que acha que é luz, cega.
15 de mai. de 2017
A insustentável leveza do ser
Eis que olhei e vi: era ele e era ali.
Era sexta de manhã, na cidade-do-fim-do-mundo, no sol do meio-dia-de-todas-as-horas e aconteceu logo ali: meus olhos viram a leveza do ser. Eu nunca teria sequer imaginado tal possibilidade.
De repente, passou por mim algo alto e leve, embora de profunda presença. No meio de tantas pessoas e premiações, quando o sol bate no verde da grama e reflete nos meus olhos, ainda assim o vi.
O vi, porque o notei.
De repente, e não me dei por mim.
A insustentável leveza do ser: quando aquele alguém (ele) caminha a passos largos e rápidos e até parece que está correndo. E seus cabelos estão ao vento. E combinam com a barba. E seus olhos eu não vejo, mas reparo no movimento do caminhar. E do parar. Onde coloca as mãos. O tamanho do sorriso e a forma que a boca toma quando abre um sim.
A insustentável leveza do ser: quando alguém (eu) dá-se por vencida sem nem lembrar que aquilo era jogo. E vê-se, de repente, desarmada. E todos os muros construídos por anos caem ao chão. E os olhos não param de olhar para o seu único objetivo: a beleza da criação logo ali. E pego-me sorrindo, e rindo de novo, e sem usar a razão. Logo eu, dona de mim. E leve, como se todos os dias não tivessem sido nada mais que o primeiro. E o primeiro, enfim, chegou.
Pegaria a chance que passara sob o meu nariz? Mas, como é que se faz? Eu sequer lembro o nome. Eu nunca fiz esforço físico nenhum. Eu nunca dei um passo naquela direção. Diga-me, menino-bonito, como é que se faz? E como é o seu nome, que eu logo descobri? E como falo com você, se já sei seu número mas não sei quais palavras usar? E se eu te escrevesse, você leria? Mas é que eu escrevo de um jeito que dá voltas - você entenderia? E o que eu não disser e só te olhar nos olhos, você consegue perceberia?
Diga-me, menino-bonito, porque estou logo aqui e você logo ali.
Diga-me, como um sussurro, para combinar com a insustentável leveza que atingiu meu ser, para ser parte do inteiro que é você, para ser leve como os passos que deu e eu contei quando olhei. Diga-me: como ser assim desse jeito que você é? Por que és assim tão bonito de um jeito que só você é e que só eu naquele dia vi?
Diga-me, menino-bonito, que estou daqui a te ver e me sinto leve, de uma forma insustentável que eleva o meu ser.
Era sexta de manhã, na cidade-do-fim-do-mundo, no sol do meio-dia-de-todas-as-horas e aconteceu logo ali: meus olhos viram a leveza do ser. Eu nunca teria sequer imaginado tal possibilidade.
De repente, passou por mim algo alto e leve, embora de profunda presença. No meio de tantas pessoas e premiações, quando o sol bate no verde da grama e reflete nos meus olhos, ainda assim o vi.
O vi, porque o notei.
De repente, e não me dei por mim.
A insustentável leveza do ser: quando aquele alguém (ele) caminha a passos largos e rápidos e até parece que está correndo. E seus cabelos estão ao vento. E combinam com a barba. E seus olhos eu não vejo, mas reparo no movimento do caminhar. E do parar. Onde coloca as mãos. O tamanho do sorriso e a forma que a boca toma quando abre um sim.
A insustentável leveza do ser: quando alguém (eu) dá-se por vencida sem nem lembrar que aquilo era jogo. E vê-se, de repente, desarmada. E todos os muros construídos por anos caem ao chão. E os olhos não param de olhar para o seu único objetivo: a beleza da criação logo ali. E pego-me sorrindo, e rindo de novo, e sem usar a razão. Logo eu, dona de mim. E leve, como se todos os dias não tivessem sido nada mais que o primeiro. E o primeiro, enfim, chegou.
Pegaria a chance que passara sob o meu nariz? Mas, como é que se faz? Eu sequer lembro o nome. Eu nunca fiz esforço físico nenhum. Eu nunca dei um passo naquela direção. Diga-me, menino-bonito, como é que se faz? E como é o seu nome, que eu logo descobri? E como falo com você, se já sei seu número mas não sei quais palavras usar? E se eu te escrevesse, você leria? Mas é que eu escrevo de um jeito que dá voltas - você entenderia? E o que eu não disser e só te olhar nos olhos, você consegue perceberia?
Diga-me, menino-bonito, porque estou logo aqui e você logo ali.
Diga-me, como um sussurro, para combinar com a insustentável leveza que atingiu meu ser, para ser parte do inteiro que é você, para ser leve como os passos que deu e eu contei quando olhei. Diga-me: como ser assim desse jeito que você é? Por que és assim tão bonito de um jeito que só você é e que só eu naquele dia vi?
Diga-me, menino-bonito, que estou daqui a te ver e me sinto leve, de uma forma insustentável que eleva o meu ser.
7 de mai. de 2017
Tempestuosidade
Um dia eu andei numa rua imaginária mas que havia existido numa história anterior. Nela, dei-me conta de como anda o tempo: para frente e para trás.
O tempo anda de um lado para o outro, de uma maneira que me faz perguntar se ele sabe aonde está indo.
O tempo está à nossa direita e à nossa esquerda e, ainda assim, ele existe atrás de nós e à frente.
Tudo isso me faz presumir que o tempo é além do tempo.
O tempo é além das horas que demos a ele. O tempo acorda quando o céu fica claro de novo, e não às 6h da manhã. E ele só escurece ao fim do dia, nunca às 18h.
O tempo é dono de si e toma seu próprio rumo a fim de fazer nossos caminhos.
O tempo é o significado que ele tem. E, esse nome, foi nós que demos a ele.
O tempo soa como a melodia que se escuta há dois vales de distância, tem a textura de uma folha de papel depois de ser escrita, sobe o rio como os peixes chegam às margens quando buscam alimento.
Um dia eu andei numa rua imaginária mas que havia existido numa história anterior e entendi o valor do tempo: ele vale mais do que as horas com que o preenchemos.
Eu não entendo nada, mas daí eu entendo tudo. Eu paro e olho e vejo uma porta verde oliva e quem um dia esteve escorado nela, com uma jaqueta colorida e uma placa que dizia "igreja não sei de quem". Mas deveria ser de algum santo que foi algum homem que pisou nessa Terra. Nesta hora, estou me dissipando, mas estou sendo eu mesma, e nenhum pedaço de mim se dissipou, porque sempre mantive-me inteira.
O tempo um dia voltou e me olhou cara a cara. E ele já fez isso de novo mais vezes. Parecia ser inverno de novo, e então primavera - mas tudo era apenas o tempo sendo ele mesmo.
Pedem para que demos tempo ao tempo, mas o tempo não precisa de nós, nem do que temos a oferecer a ele. O tempo é que nos dá e, por isso, peçamos: dê -nos tempo.
Dê -nos tempo, porque hoje já é quase ontem de novo. Dê -nos tempo porque o dia acaba e já é quase amanhã. E então, é tudo novo de novo, e e até a gente é novo de novo, e tudo é resinificado e passa a ser como o Primeiro Dia da Criação.
De-nos tempo para assimilar o que temos aprendido. Peço tempo, porque fui conversar uma conversa difícil, e só agora colho os resultados. Peço tempo porque no começo eu não entendia nada. Peço tempo porque só depois entendo o nome das coisas. Peço tempo porque estou a ser eu mesma, quem fui desde o começo em que meus pais me fizeram: saí na rua, e estou a ser.
O tempo fez um acordo comigo, deu um giro e se foi. Desde então, é tempo transcorrido, tempo mantido, tempo para passar e passar dos tempos. Cai a tempestade e então somos lembrados: é tempo. É o tempo. É apenas o tempo sendo ele mesmo e lembrando-nos: sejamos, também.
O tempo anda de um lado para o outro, de uma maneira que me faz perguntar se ele sabe aonde está indo.
O tempo está à nossa direita e à nossa esquerda e, ainda assim, ele existe atrás de nós e à frente.
Tudo isso me faz presumir que o tempo é além do tempo.
O tempo é além das horas que demos a ele. O tempo acorda quando o céu fica claro de novo, e não às 6h da manhã. E ele só escurece ao fim do dia, nunca às 18h.
O tempo é dono de si e toma seu próprio rumo a fim de fazer nossos caminhos.
O tempo é o significado que ele tem. E, esse nome, foi nós que demos a ele.
O tempo soa como a melodia que se escuta há dois vales de distância, tem a textura de uma folha de papel depois de ser escrita, sobe o rio como os peixes chegam às margens quando buscam alimento.
Um dia eu andei numa rua imaginária mas que havia existido numa história anterior e entendi o valor do tempo: ele vale mais do que as horas com que o preenchemos.
Eu não entendo nada, mas daí eu entendo tudo. Eu paro e olho e vejo uma porta verde oliva e quem um dia esteve escorado nela, com uma jaqueta colorida e uma placa que dizia "igreja não sei de quem". Mas deveria ser de algum santo que foi algum homem que pisou nessa Terra. Nesta hora, estou me dissipando, mas estou sendo eu mesma, e nenhum pedaço de mim se dissipou, porque sempre mantive-me inteira.
O tempo um dia voltou e me olhou cara a cara. E ele já fez isso de novo mais vezes. Parecia ser inverno de novo, e então primavera - mas tudo era apenas o tempo sendo ele mesmo.
Pedem para que demos tempo ao tempo, mas o tempo não precisa de nós, nem do que temos a oferecer a ele. O tempo é que nos dá e, por isso, peçamos: dê -nos tempo.
Dê -nos tempo, porque hoje já é quase ontem de novo. Dê -nos tempo porque o dia acaba e já é quase amanhã. E então, é tudo novo de novo, e e até a gente é novo de novo, e tudo é resinificado e passa a ser como o Primeiro Dia da Criação.
De-nos tempo para assimilar o que temos aprendido. Peço tempo, porque fui conversar uma conversa difícil, e só agora colho os resultados. Peço tempo porque no começo eu não entendia nada. Peço tempo porque só depois entendo o nome das coisas. Peço tempo porque estou a ser eu mesma, quem fui desde o começo em que meus pais me fizeram: saí na rua, e estou a ser.
O tempo fez um acordo comigo, deu um giro e se foi. Desde então, é tempo transcorrido, tempo mantido, tempo para passar e passar dos tempos. Cai a tempestade e então somos lembrados: é tempo. É o tempo. É apenas o tempo sendo ele mesmo e lembrando-nos: sejamos, também.
2 de mai. de 2017
Como é que se escreve
Todas as coisas do mundo só existem porque têm nome e o segredo para tudo isso é: como é que se escreve?
Saiba como escreve, tenha o oráculo desvendado em mãos. Saiba como escreve, leia o mapa da subjetividade. Percorra-o. Escreve e cria, assim, o primeiro momento de todas as coisas.
Então era esse o momento inicial: as primeiras palavras. O modo como eu as escrevia. O contorno do S. Letra cursiva ou letra de imprensa. Uma anotação só minha que era como desvendar o mistério da criação diante dos meus olhos: bastava ler o que havia sido escrito.
Como é que se escreve: o nome dele, a cidade da era soviética que ainda se mantém de pé, o sobrenome de quem a gente ama, os números do calendário, as ideias repentinas, o momento que passou, o olho na pulseira do seu braço, o dia seguinte, o barulho que o ventilador deveria fazer, as horas no relógio, as faces comuns, os lugares conhecidos, os passos que a gente deu, a melodia que os fins do dia trazem, o cheiro de inverno no meu mês, a porta da lanchonete onde comi a refeição que me deu vida, o episódio da história, o amor que eu senti um dia ... como é que se escreve?
E, escrevendo, qual será o nome?
Dê-me um nome, para que eu o dê às coisas. Todas as coisas pedem nomes, pois é a razão primeira para que possam existir. Então, me diz, como é que se escreve? Me diz, e eu mesma escrevo por mim.
Qual o nome disso?
Sabe como se escreve e terás o segredo da criação e do andar invisível, mas palpável, dos dias.
Saiba como escreve, tenha o oráculo desvendado em mãos. Saiba como escreve, leia o mapa da subjetividade. Percorra-o. Escreve e cria, assim, o primeiro momento de todas as coisas.
Então era esse o momento inicial: as primeiras palavras. O modo como eu as escrevia. O contorno do S. Letra cursiva ou letra de imprensa. Uma anotação só minha que era como desvendar o mistério da criação diante dos meus olhos: bastava ler o que havia sido escrito.
Como é que se escreve: o nome dele, a cidade da era soviética que ainda se mantém de pé, o sobrenome de quem a gente ama, os números do calendário, as ideias repentinas, o momento que passou, o olho na pulseira do seu braço, o dia seguinte, o barulho que o ventilador deveria fazer, as horas no relógio, as faces comuns, os lugares conhecidos, os passos que a gente deu, a melodia que os fins do dia trazem, o cheiro de inverno no meu mês, a porta da lanchonete onde comi a refeição que me deu vida, o episódio da história, o amor que eu senti um dia ... como é que se escreve?
E, escrevendo, qual será o nome?
Dê-me um nome, para que eu o dê às coisas. Todas as coisas pedem nomes, pois é a razão primeira para que possam existir. Então, me diz, como é que se escreve? Me diz, e eu mesma escrevo por mim.
Qual o nome disso?
Sabe como se escreve e terás o segredo da criação e do andar invisível, mas palpável, dos dias.
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