20 de mar. de 2015

A noite do meu bem

A noite do meu bem é também minha. E de tudo o que aconteceu comigo.

Vem-se as noites, porque passam-se os dias, e ficam as coisas que duram, porque, estas, aconteceram.

Esqueça tudo o que senti: o que vale mesmo é o que se vive. Mas como saber, no fim das contas? Sabe-se de nada, tem-se certeza de tudo. Porque esta, e a outra, é a noite do meu bem.

A noite do meu bem é marcada, acontece como um punho forte de uma mão fechada. Mas envolve-me em um abraço doce. A noite do meu bem deixa-me incrivelmente alerta, com os olhos escuros dilatados, em estado natural, veja só.

A noite do dilúvio molhado, do dar as mãos em meio ao vazio, de caminhadas pelas ruas laterais sem folhas. Neste dia, ou melhor, nesta noite, descobre-se tudo que fala um coração.

A noite do meu bem tem artificies melódicos, um som que rima com a minha cara que eu chamarei de face, e os ouvidos atentos ao que não se diz. Abrace a minha mão - ou melhor, aperte-a. Deixe em mim um pouco do que é seu. Leve de mim também, que fui parte sua. Estenda-se aqui, um pouco mais, faz chover para mim, pois lhe peço, uma vez que gosto muito. Na noite do meu bem, senta ao meu lado em minha cama comigo. Encare meus livros de frente, pois vamos falar sobre os títulos. Ajude-me com o que for pesado, pois meus braços finos não conseguem carregar mais do que o peso dos meus ombros.

Encoste na parede branca, onde verei suas marcas invisíveis mas sempre perceptíveis aos meus olhos. Deixa seu cheiro no ar. Enxuga as mãos na toalha que coloquei há pouco no banheiro, molha o rosto para ajudar passar. A noite do meu bem vem, fica aqui comigo um instante, e já amanhece. Ainda assim, ela será eterna.

Há cacos pelo caminho dos pedaços da gente que a gente quebrou. Assim, a gente vai construindo. Era apenas um apito. Mas aconteceu.

Na noite do meu bem escuto tanta coisa bonita, e tudo vem dos seus lábios. Eu paro e penso e olho para o lado. Sim, eu paro e penso e olho para o lado. Espera aí, é isso mesmo? Então repete, porque eu não sabia. Então me diz mais uma vez, porque eu não acredito. Esse é o problema comigo, o meu ceticismo. Mas eu daria a ele outro nome.

A noite do meu bem  é minha, e dele, e de nós dois. E de tudo o que  é, foi e será a gente. Eu te olho nos olhos e te agradeço, até quando eu não quero agradecer eu agradeço. Eu paro, olho e escuto. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que eu, a vida e as coisas fossem muito mais fáceis, muito mais fáceis. Eu queria era sair correndo e só voltar quando o dia nascer de novo.

A noite do meu bem me soou tão doce que até deixou um buraco em meu coração apertado. Fiquei com emoções simultâneas, o que quer que isto signifique. Mas para mim diz muito. Eu estou aprendendo a entender, eu estou até escrevendo um pouquinho. Eu não sei de nada, eu só sei que foi assim e aconteceu desta maneira e quando eu me dei por mim já havia passado. Eu queria que tudo na vida e entre as pessoas e que me envolvesse fosse de um tom cuja cor é leve, doce e meiga. Eu queria muito isso, com toda a ternura do meu coração.

Desculpa, eu nunca quis machucar ninguém. Eu já fui machucada, mas dói muito mais quando a gente machuca alguém.

Meu bem, você é o meu bem esta e tantas outras noites.

13 de mar. de 2015

All the nights you don't show up

... she can feel the smell of dark air, while staring at nowhere. That's what her brown eyes are for.

It's been such a dark blue kind of lately.

Guess life's meaning for dark is deep and strong. Maybe there's some relevance in saying so.

So let the story begin:

it's the hair. It's the hair in the air. And her friend's confusion with ''a'' and ''h''. And you ask about a small market at a corner of a space shown in the news.

The night you don't show up she still sees your hands, with all the little detais. So many details, there are.

(I - me, myself - come into the scene to wonder how his mom made all that. Was it care, love or simply art?)

The steps are counted, the shake of hands becomes hugs which will eventually turn into goodbyes. And, yet it is winter, there are so many flowers across the path that's not hers. Her difficulty with commas in a foreign language reminds her of you. Now she knows it can be real. And nothing matters but what you mean when you say when you write.

The nights you don't show up are plain of you. They are created out of invented expressions. Of mistakes and learning. But not once forgetfulness.

The nights you don't show up she wastes dealing with her current boyfriend. They sure speak a different language yet they have the same mother tongue. She blinks because that helps time passing. If things are so simple, why is it that her confused brain takes her to a forest? This is going nowhere, you all know what I mean.

You can count the notebooks around her room, because there are so many. She writes out of the blue, she takes notes so she doesn't loose any aspect of life. She's so pissed off at her uncles being artists. And her mom was one as well. Oh, I guess you don't really choose what you ought to be.

The nights you don't show up have your constant smell, and she was the one who really-liked-it-the-most. These nights are like an empty street which leads to so many places. She could even choose. Nights out of you, if she could say it.

They are playful since you see all these people outside with their colorful clothes, despite of all things, despite of you not showing up at night. The nights you don't show up require so many walking and no moving. A stop by at a random bar she doesn't really care about. She's paying attention to the boring fence across the avenue.

The nights you don't show up speak with your voice, and call your name. I look to see nothing, but I know there has been. Nights like this bring with them all little presents from past. They end up making her write her friend, though she has no patience at the girlie drama from the East. She was certain they were supposed to be brave over there. Anyway.

The nights you don't show up keep the handwriting marked in her view. She sees all things because once in a while she feels with her heart. She googled map (isn't it right we can creat all and any verbs in English, which is good when you don't even know how to conjugate verbs in your own language - argh, those romance languages!) her last international spot. And was reminded of you. The coldness, the huge windows always closed which make her wonder why they exist in first place, heavy doors made out of woods, a dog or two or maybe one in every house, the weird roofs which aren't all the same at least, the architecture so different from one of her uncles', the hidden sun in the end of the street, no one outside, some forgotten trash cans, and of course trees with no leaves - all so gloomy and yet she likes it. How is it where you live???

The nights you don't show up you are still here.


6 de fev. de 2015

Uma Garota Dividida

Uma garota divida não está aqui, e nem em todo lugar e nem em local algum.

Vivi-se como em um barco, sem firmeza porque o que mais se quer é mudar de lugar. Aqui, lá.

Uma garota dividida já não sabe mais fazer contas, deixa os detalhes passarem em sua frente, e conta nos dedos. Foi-se a sinfonia, ficou-se o asfalto cinza que cobre as ruas movimentadas e, por isso, tão paradas.

Uma garota dividida vai a loja e fica na duvida sobre um shampoo: tem-se nele o cheiro dele, por isso ela o volta para a prateleira só para pegá-lo novamente depois. Traz consigo para casa como quem nunca perdeu o que fora seu.

Uma garota dividida é como uma folha de papel branca. Ela é como o céu monótono dos dias de verão: de uma cor só. Ela é como as folhas das árvores da primavera: todas em um tom de verde. E ainda por cima lembra um vidro de lanchonete sujo. A visão fica embaçada, a tosse rouca vai sumindo, o cabelo não está mais bagunçado e toda a teoria criativa dos detalhes da vida espirou-se.

A menina dividida de duas pernas, dois pés e dois passos não vai a lugar nem um. Sequer sabe para onde caminhar, pois segue os passos sem graça que ela mesmo deu. O olho da coruja viu no escuro e o segredo fugiu do ouvido. A porta foi trancada e não restou vizinho algum para contar estória.

Dividi-se toda até que se junta, encontra-se e torna-se ela mesmo novamente.

De novo.

7 de jan. de 2015

O medo devora a alma - ou "Angst Essen Seele Auf"

O medo devora a alma, "Angst Essen Seele Auf" - assim, desse jeito.

O medo devora a alma, mas fala-se de "alma" bem baixinho que é para não despertar os tiranos.

A invasão contra os bárbaros salvou o mundo dividindo-o em dois: eles, e nós. E, claro, quem não está em lugar nenhum, como eu. Oh, como somos gratos, nós do mundo inteiro que no futuro seremos apenas história, a vocês, povos civilizados constituintes das causas tão nobres.

Quem são os bárbaros?

A balança do poder moveu-se com o ponteiro do relógio, sacudiu conforme a voz da multidão, cortou o dedo em uma faca. Tampa-se os olhos e os ouvidos. Enquanto isso, leva-se a vida como um dia comum.

O medo devora a alma porque nunca se sabe se serão capazes de fazer o que fizeram no passado. Será que hoje o mundo mudou? Será que hoje as pessoas mudaram? Será que uma geração pode mudar mesmo, assim tão rápido?!? Enquanto isso, o medo devora a alma e vivi-se um dia de cada vez enquanto tenta-se chegar a padaria. Vergonha nacional. Internacional. Do mundo inteiro. Mas virou apenas uma página da historia - será que eles estudam isto - a vergonha - na escola?

O medo devora a alma de um senhor das costas curvadas, roupas em tons bege, e uma sacola na mão. Ele reside ao fim da rua, mas eu diria que é tudo a mesma coisa. Ele é jogado para a esquina, levado cada vez mais para fora, até formar a periferia, que ele chama de casa.

O medo devora a alma porque as pessoas são intolerantes. Porque eu não quero ouvir falar de deus e não pode-se mais usar a caneta. O medo devora a alma porque não há mais câmaras de gás e o trabalho não liberta. Seremos todos comunistas em um bairro divino onde comeremos maçãs sentados em um muro a observar o outro morrer. O outro, não eu. Nunca nós mesmos.

O medo devora a alma e vira filme de cinema. Vira-se estrela de cinema. Vira-se ícone. Ensina-se mas nunca se sabe se foi aprendido.

Prometo que nunca haveria reparado em como o medo devora a alma se não fosse minha inteligente e sensata irmã, que leu e me apontou a ironia - tanta ironia em um título tão simples, sincero e profundo. E, claro, escrito de forma "errada" - "Angst Essen Seele Auf".

Ah, o medo devora tanto a alma! Teme-se a terra branca, escreve-se um título errado mantendo o erro linguístico com carinho, pensa-se, vive-se, trabalha-se e sobrevivendo iremos - aqueles que ficarem e não forem.

5 de jan. de 2015

Que horas são aí?

 Me diz que horas são por meio dos seus olhos. Me diz que assim vou olhar o ponteiro de ponta a cabeça e veremos os mesmos pontos minúsculos de poeira cósmica.

Diga-me que horas são neste local do mundo, assim tão distante de mim mas ao mesmo tempo sempre tão ao meu lado! Quase dentro de mim, fazendo-me quem sou.

Aqui há quatro cantos nas paredes, porque os cômodos tendem a ser quadrados. E o mundo já não é mais uma bola, pois esta ficando quadrado também. E as pessoas, e ate os cheiros das flores perfumosas.

As horas de todos os locais do mundo são a mesma, ainda que em horários diferentes. E assim também será o horário do fim do mundo, das alegrias e tristezas, ainda que este dia nunca chegue e exista apenas em livro.

A gente vai tomando socos da vida, mas nem é da vida não, e vai colecionando dores e um dia se da conta de parar para perguntar que horas são.

Há hora para tudo e a hora há de chegar. E neste momento os verbos do latim tão chatos irão se destacar da folha e serão apagados pelo sopro da memória. E neste momento será o mesmo momento para todo mundo.

E quando as horas passarem depressa porque houve muita felicidade envolvida, em outro local do mundo as horas passam devagar e doloridas, respingando. Tira-se um quadro da parece porque há tempo e leva ternura. Basta saber notar.

Me diz que horas são e me sacode, abra meus olhos que estão quase fechando, respira perto de mim, toma folego e me impulsiona, sussurra os segundos de vida que ainda restam no planeta - o mesmo para todos nos, quem diria - e não esquece de parar o tempo. Porque sim, perde-se tempo, o tempo é perdido.

Que horas são aí para você que, embora tão similar, é-me tão diferente (acho que acabei de inventar esta conjugação verbal, mas tudo vale a pena?). Que horas são os momentos que formam seus dias, e completam os segundos tao curtos e infinitos que, juntos, formam um vida toda com um fim ao final?

Diga-me as horas que eu te direi os momentos. Dá-me a mão neste mundo, eu que navego distante do sol porque prefiro o inverno. E sei que perdi os pontos cardeais de um momento que levou a todas as perdições da história.

Vem-se o vento, mas não antes de eu lhe perguntar: que horas são aí? A mesma que a minha?

2 de dez. de 2014

Meu pé esquerdo

Meu pé esquerdo mostra a parte de mim. Escancara-me os olhos dos outros e os meus próprios, tira o meu cabelo do rosto e não me deixa tempo para recuperar o folego mesmo ao correr distâncias longas.

Um pé esquerdo te dedura, te corrige e te ensina. Mostra-se presente mesmo quando não se quer. Comporta-se como o olhar sob o ponto de vista de um lápis que repousa pelo caminho de uma memória.

Mas meu pé esquerdo não toma conta de mim, pois não se apossou da menina que fui e faria. Não sei mais desenhar e nem escrever poemas, pois falta-me a inspiração e perdi os detalhes. Vejo vontade em cada esquina das coisas, mas não habito mais o mundo da imaginação que mudou-se de dentro de mim e hoje mora lá fora.

Meu pé esquerdo não mais desenha e deixou sua veia artística secar. Diz-se que são fases e que a essência da pessoa nunca morrem - o que morrem são os corpos. O diário do mundo ainda não escreveu esta página do futuro em branca, e eu já quero desenhá-la.

Sob o ponto infinito que meus olhos criaram a uma curta distancia, ando com meu pé esquerdo que me acompanha mas sempre me deixa. Sou eu mesma, dona de mim. Apenas vou aonde vou, e irei até ficar. Direi a mim repetições sem sentidos que mais parecem sons rítmicos e confesso que agora, neste exato momento, não tenho a minima ideia do que escrevo, embora tudo faça muito sentido.

O horizonte ao seu aberto mostrou o risco para nos. O humano deixou de habitar o coração e os tons de azul congelaram. Um pé esquerdo sempre sera um pé esquerdo, mas tudo depende do ponto de vista. Acredito que minhas irmãs canhotas, juntas e separadas, formam muito mais talento do que um pé esquerdo - o meu pé esquerdo - poderia aturar. Um dia toda a inspiração foge...

O fim da tarde cinzento que bate na janela preenche as cicatrizes desformes que são apenas sentidas, mas sabe-se que estão la. E, comigo, assim, levo meu pé esquerdo, porque não me separo dele e ele já não faz mais parte de mim.

Um pé esquerdo é um pé esquerdo independente de qualquer coisa, senhorita Márcia.

12 de nov. de 2014

O sol do meio dia

O sol do meio dia chegou para cegar.

Embora brilhante, era assim tão forte que me apertava os olhos de uma maneira tão fina.

Este era então o destino do sol do meio dia - embora alegre de tão terno e quente, arrancava sempre um suspiro meu.

Enquanto isso, no polo norte, vive-se o dia, experimenta-se o gosto que o frio tem ao bater nos ossos, cozinha-se como se comer fosse uma obrigação e não um privilégio, e raramente ouve-se sons vizinhos. É assim então esta história: tão gêmea mas nem tão igual.

A gente pega na mão com um carinho que nem quer mais soltar, mas os dias crescem à medida que o tempo passa. O ar fica mais rarefeito, mas os jornais dirão que é o efeito do Trópico de Capricórnio. Os soldados já se foram, mas deixaram suas marcas.

O sol do meio dia trouxe consigo a lembrança de uma irmã, que habita diariamente minha mente. Ela sempre está aqui, lembrando-me de sua lembrança, fazendo-se presente mesmo tão longe, deixando-me sozinha sem o amor de sua companhia. Como me dói estar longe da minha irmã do meio, meu grande amor. Como dói cada pedacinho de mim se a mão dela não está a uma distância ao alcance.

Mas, enquanto isso, celebra-se, pois é sol do meio dia.