5 de mai. de 2010

Só pra lembrar:

querida Márcia,

- "o interessado vai atrás".

"Mas eu também estou interessada!", disse eu, Márcia.

- "Mas é o interessado que vai atrás. A interessada, fica", disse o meu lado sensato (que não tem nome, coitado).

"Fica quieta", completei eu, pra mim mesma, com a cabeça baixa, o olhar triste e o bico de emburrada que me é característico quando sou contrariada.

Que eu lembre, todos os dias da minha vida, que o interessado é que vai atrás. E que isso é que é bonito. Às vezes a gente fica ansiosa, na expectativa, doida pra fazer alguma coisa, mas é feio. Bonito é ele correr atrás. Correr atrás, não. Chamar, ligar, procurar. Correr atrás também é feio: pra quem corre e pra quem deixa o outro se prestar a um papel desses.

Pois então, que eu não me esqueça, nem quando eu me esquecer e nem quando eu lembrar. Porque às vezes eu "tô numa boa" ("que linguagem é essa?", minha voz sensata diria, mas aqui disse eu), sem se importar, mas outras vezes eu "tô a fim". E, nas duas vezes, e em qualquer outra vez, é o interessado que corre atrás. E que eu também tenha paciência, pra esperar ou pra aceitar o que vier (ou não vier, vai saber...).

P:S.: Só pra lembrar. Ou nunca esquecer.

28 de abr. de 2010

Confessional poetry

Não é poesia, mas é confissão. É que escrever poesia é difícil e requer ser Sylvia Plath ou Robert Frost.

Confesso que sou culpada, que deixo tudo para mais tarde. Deixo tudo, na verdade, para "quando está tarde". Mas é que eu sou assim. Faz parte da minha natureza. E quando escutei uma amiga dizer que "carro apertado é que anda", pensei "ah, esse é o meu provérbio" e senti que descobrira um pouquinho de mim. É como se no instante em que ela falasse aquela frase me fosse dada uma revelação. Uma revelação sobre mim mesma; sobre como sou enrolada às vezes. Mas eu faço. E faço com capricho, com dedicação e com amor. Essas palavras também são escritas sob a forma de "bem feito". Acho até que deixo pra depois inconscientemente, porque sei que vou fazer direitinho...

Essa semana seria a semana da poesia confessional. Mas, confesso, não peguei em um livro! Na verdade, confesso mas me justifico: peguei sim, nos da Clarice Lispector, nos três que estou lendo. É que eu gosto de ler muitos livros ao mesmo tempo. Mas sobre essa minha característica não achei frase ainda não, nem provérbio.

Pois bem. Estou agora cansada, toda doendo da tal corrida que falei aí no post de baixo e com sono. E - juro - não vou estudar sobre essa tal confessional poetry porque ela é um tema tão bonitinho, mas tão bonitinho, que me encanta. E, no momento, não estou encantada. Então, não vou ler nem escrever. Porque não vou fazer com amor, nem com dedicação, nem com capricho, ou seja, não vou fazer bem feito. E não gosto do que não é bem feito.

Isso tudo é uma confissão, ainda que não esteja em forma de poesia. Uma confissão sobre mim, sobre minhas manias e meus provérbios, sobre meus comportamentos que ainda não foram justificados e reforçados por provérbios, sobre a minha, só minha, culpa de ainda não ter estudado o que eu deveria. E isso tudo, no fim, é poesia...

Como chama mesmo?

Comecei a fazer caminhada essa semana. Decidi também que iria correr, porque todo mundo consegue correr (e porque eu acho "chique" também. Eu tenho opiniões non sense). Consegui, olha só, correr durante 4 minutos! Parece pouco mas é demaaais, já que eu mal consigo correr pra pegar um ônibus se for preciso! Mas bem, isso tudo é pra falar que enquanto eu corria comecei a lembrar do meu tio, que corre também. Ele já tem quase 45 e corre 1 hora sem parar. Toda vez que eu estava quase desistindo, lembrava dele. Sempre o vejo correr por aí.

Então, hoje na hora do almoço ele me liga e fala que resolveu me ligar pra me mandar um beijo e porque sonhou comigo a noite passada. Sonhou que eu virei pra ele e falei: "tio Marcelo, você vai correr? Posso correr com você?".

Como se chama mesmo isso? É coincidência o nome que a gente dá?

Acho que não.

27 de abr. de 2010

"Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê"

Estive pensando...

será que as pessoas são mesmo aquilo que a gente vê? Pensando mais, acho que o que a gente vê vem carregado daquilo que a gente é e viveu.. e, pensando mais ainda, será que o que as pessoas são fica assim "claro e simples", pra qualquer um ver?

A moldura da pessoa eu não vejo, geralmente não me interessa. Mas o que a pessoa é "por dentro", ah, isso me encanta e me prende a atenção. Sou uma "people watcher".

E a respeito de ser aquilo que se vê, gostaria de dividir uma coisa... uma coisa que acontece comigo sempre. Aliás, não "acontece comigo"; na verdade, sou assim.

Há pessoas que me chamam mais atenção. Há pessoas que me passam sentimentos, que me mostram, sem querer, o que estão sentindo. Há pessoas que me falam, sem querer, como são. Há pessoas que me falam, sem querer, onde moram. É tudo sem querer. Simplesmente acontece.

Não sei se o nome é sensibilidade, mas creio que sim. Gosto disso, de adivinhar, de sentir que a pessoa é assim, de sentir que ela mora em uma casa com janelas grandes de madeira, de sentir um pouco da pessoa... gosto, principalmente, de brincar de adivinhar comigo mesma, de me desafiar. Faço apostas de como acertarei e nunca perdi pra mim mesma.

Sobre o local em que as pessoas moram... é o que eu chamo de conhecimento inútil. Para que sabemos uma coisa dessas? Não sei. Mas acho que posso dar um palpite: é que gosto muito de casas. Gosto de desenhar, principalmente casas. Queria até ser arquiteta há milhares de anos. Gosto de observar os detalhes e de notar tijolinhos. Além do fato de gostar de casas, tem esse negócio de sensibilidade.

26 de abr. de 2010

Preguiça

Sempre que "estou com preguiça" me pego, involuntariamente, me censurando. É que eu ouvi falar, há alguns anos, que preguiça é coisa feia, muito feia. E é mesmo, não é? É feio demais.

Mas há um tipo de preguiça, que eu não sei se é só meu, que eu sinto sem constrangimento: das pessoas. Tenho preguiça das pessoas que acham que estão fazendo as outras de bobas, tenho preguiça das pessoas que mentem, tenho preguiça das pessoas que se julgam espertas, preguiça das pessoas que fazem tudo por interesse, preguiça das pessoas que tentam passar as outras pra trás, preguiça das pessoas que só procuram as outras quando lhes convém, preguiça das pessoas más. E eu acho tão bonito eu ter preguiça! Porque geralmente tem-se outra coisa, com outro nome: raiva, ressentimento, falta de paciência. Mas eu, felizmente, tenho é preguiça. Tenho tanta preguiça que um post para falar de umas pessoas dessas me dá mais preguiça. Termino por aqui, sabendo que a preguiça continua.

25 de abr. de 2010

Na idade da pedra

"Quem? Quem já me levou na idade da pedra para um passeíto do qual nunca mais voltei porque lá morando fiquei?"

Lá morando fiquei: Curvelo. Na idade da pedra.

Curvelo continua na idade da pedra. Nas ruas há carroça e bicicleta. No ponto de táxi atrás da igreja os taxistas jogam xadrez. E, também, conversa fora. Quem passar pode participar. E quando passo de carro, não paro nem participo, mas vejo meu tio, sentado no murinho, com seus amigos, conversa fora jogar. Eu passo e grito 'ei tio' e ele devolve meu grito com um aceno e um sorriso. Tudo isso é a idade da pedra. Meu tio sabe que falo é com ele, e sabe que quem fala com ele sou eu. O que nunca acontece em uma cidade grande que na idade da pedra não vive mais, pois nela nunca estão falando com você.

Em Curvelo, a idade é da pedra e só há um provedor de internet pra assinar. Tv a cabo também só há uma. Só variedade é que não há.

As praças ainda são praças, e a gente chama de pracinha. E elas são cuidadas, bonitinhas - ou eram, sei lá. Quando faz calor você sabe onde todo mundo está. Porque todo mundo sai pra tomar sorvete, e dependendo de quem você quer encontrar, você tem que adivinhar em qual sorveteria está. Mas é fácil e você só precisa de 3 tentativas pra acertar.

Há também armazém, com nome de armazém mesmo. Esses nomes, que costumam vir com o nome do proprietário ou da filha dele. E o legal é comprar fiado, ou fazer a notinha que a gente não confere e só paga no fim do mês. É que, na idade da pedra, confiava-se. E em Curvelo, confia-se também.

Mas na idade da pedra, pelo menos lá em Curvelo, as pessoas ainda são vaidosas. Tem salão de beleza em tudo quanto é esquina, uma beleza! Mas você não vai em qualquer um não, assim, escolhendo aleatoriamente, na esquina que passar. A gente sempre vai naquele que a gente vai. Eu, por exemplo, vou no que fica na rua debaixo da minha casa, e chego antes pra ficar lendo revistas, e fico até mais tarde porque engato de conversa com a dona do salão, que é a única pessoa que eu deixo fazer minha sobrancelha. E de vez em quando eu esqueço o dinheiro lá em casa. Ou vou e não levo porque vou buscar mais tarde.

Tem jornal também, oras. O jornaleiro leva o jornal, ou eu corro e busco, porque hora de ler jornal é antes do almoço. Depois é hora de dormir só um pouquinho e no sofá. E o padeiro, olha que bom, deixa o pão nas casas todo dia de manhã. E de tarde, na hora de 'tomar café', como chamam a hora da tarde nessa idade. Naquela moto que tem uma não sei o que (porque não sei mesmo), cheia de pães, broas, fatias, biscoitos, pão de queijo, pão com creme e sonhos. E ele sempre pára é na porta da minha casa, pelo menos na minha rua, e buzina, pra todas as vizinhas que quiserem pães irem pra lá. E quando eu sai pra buscar, tem aquele tanto de vizinha, aquelas que você conhece e sabe os nomes e sabe outras coisas também. Elas te cumprimentam, e, pra eu não precisar abrir o portão, perguntam o que eu quero 'que elas pegam pra mim'. Quando eu estou com preguiça eu deixo. Mas também gosto de ir lá ficar olhando tanto pão e pensando qual vou escolher, logo eu que sou tão indecisa!

24 de abr. de 2010

Dedicatória da autora

Dedico-me à cor azul que aos meus olhos encanta. Dedico-me às tempestades com chuvas de raio. Dedico-me à saudade do inverno de verdade. A Clarice que me impressiona. Dedico-me sobretudo às músicas do meu repertório pessoal e aos livros que guardo na estante com amor. Aos papéis e canetas. Às estampas de bolinha e ao cheiro de carro novo. Dedico-me à banheira com água quente ao entardecer do dia. Aos fins de semana que espero chegar. Dedico-me ao sorvete que nunca é suficiente e ao ingresso do cinema. A tudo isso que em mim atingiu zonas assutadoramente inesperadas a ponto de eu neste instante explodir em: eu.