Minha irmã já não escreve uns versinhos, nem uns versinhos a minha irmã escreve mais.
Eu, um dia, até tentei pegar em sua mão para lhe ensinar a escrever. Este é o papel da irmã mais velha. E isso foi uma vida inteira - o escrever tem muitas formas.
E eu peguei em sua mão para lhe ensinar a escrever. Eu repito, porque é o que acontece quando o repete é vivido de novo. Esse tal repetir.
Mais tarde, chegou esta vez de novamente: é que a a vida cria muitas oportunidades. E minha irmã tentou: minha irmã leu uns versinhos.
Mas minha irmã não os escreve: minha irmã já não escreve versinhos.
E como é que se vive? Como é que se vive sem escrever?
E como é que se vive? Como é que se vive sem ser escrita? Sem escreverem para você?
Eu só me formo inteira por palavras, que me constroem de significados. Mas eu não a voicero (talvez eu tenha inventado esta palavra para o que significa dizer, só que com a voz). É que eu só falo escrevendo.
E minha irmã não escreve. Nem uns versinhos minha irmã escreve mais.
1 de dez. de 2018
25 de nov. de 2018
Vestígios
Fico guardando os traços pelos cantos.
Fico guardando os cantos como se precisassem ser olhados.
Fico acendendo a luz e mantendo tudo o que é seu: há letras com palavras escritas no bloco na gaveta da sala, na garrafa de água na geladeira e na vasilha da cozinha.
Tua letra é curvada, quase gordinha.
Tua letra também é sua.
E o bloco anotado, com o nome de não-sei-quem na sala, tem sempre a primeira página ali, por estar: eu a movo para um lado e sempre só escrevo na próxima. Não posso te apagar.
Há também os livros que são teus. Não muitos (eu não conheço ninguém que tenha mais livros do que eu), mas sempre seus. Eu olho a capa e já logo vejo: é nome estrangeiro, é palavra que eu nem sei ler. Teríamos mesmo, nós duas, o mesmo sangue?
Gosto de guardar os detalhes de você aqui comigo pela casa. Parece que daqui você nunca saiu e é como se fizesse parte da minha vida ainda. É como se você existisse nos meus dias, quando já se foi.
Chego a olhar para mim com um respeito que soa quase como um amor: abro a geladeira vestida de uma blusa amarela, que eu nunca compraria, mas que você me deu porque era sua e você não quis mais; encosto na garrafa com cuidado, porque tem seu nome; sirvo-me daquela água que bebo; e ligeiramente me olho com rabo de olho: é tudo muito tão rápido (assim, nesta intensidade), uma linha entre eu-e-você, como um você-e-eu.
Eu, que te olho daqui para aí tão longe, te vejo. Eu penso nessas coisas boas todas que você as tem e as desejo muito.
E, então, como um sopro do coração eu logo escuto (é quase um recordar): eu vim primeiro.
Se és assim, é porque me puxou: você é que se parece comigo.
Fico guardando os cantos como se precisassem ser olhados.
Fico acendendo a luz e mantendo tudo o que é seu: há letras com palavras escritas no bloco na gaveta da sala, na garrafa de água na geladeira e na vasilha da cozinha.
Tua letra é curvada, quase gordinha.
Tua letra também é sua.
E o bloco anotado, com o nome de não-sei-quem na sala, tem sempre a primeira página ali, por estar: eu a movo para um lado e sempre só escrevo na próxima. Não posso te apagar.
Há também os livros que são teus. Não muitos (eu não conheço ninguém que tenha mais livros do que eu), mas sempre seus. Eu olho a capa e já logo vejo: é nome estrangeiro, é palavra que eu nem sei ler. Teríamos mesmo, nós duas, o mesmo sangue?
Gosto de guardar os detalhes de você aqui comigo pela casa. Parece que daqui você nunca saiu e é como se fizesse parte da minha vida ainda. É como se você existisse nos meus dias, quando já se foi.
Chego a olhar para mim com um respeito que soa quase como um amor: abro a geladeira vestida de uma blusa amarela, que eu nunca compraria, mas que você me deu porque era sua e você não quis mais; encosto na garrafa com cuidado, porque tem seu nome; sirvo-me daquela água que bebo; e ligeiramente me olho com rabo de olho: é tudo muito tão rápido (assim, nesta intensidade), uma linha entre eu-e-você, como um você-e-eu.
Eu, que te olho daqui para aí tão longe, te vejo. Eu penso nessas coisas boas todas que você as tem e as desejo muito.
E, então, como um sopro do coração eu logo escuto (é quase um recordar): eu vim primeiro.
Se és assim, é porque me puxou: você é que se parece comigo.
19 de out. de 2018
Acaso sou eu guardador do meu irmão?
Como diria Lispector:
"Porque nem sempre posse ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais"
Eu, que tenho-te guardado, velado e guiado quando dou meus passos à frente. Veja e olha: eis que eu te guio até quando não caminho.
Eu, que tenho guardado o que tens feito comigo: desde que nasceu, já me lembro mais.
Mas a guarda não sou eu. Nem sua sereis guardadora de nada. Nada me foi depositado. Nunca aceitei. A ti não tenho que guardar. Guardo-me inteirinha, assim, de você, para me preservar de ti.
Acaso sou eu a guarda da minha irmã?
Eu, que guardo o guardado, em minhas mãos entrelaço, estou pronta para desfazer o laço.
30 de set. de 2018
Menina, que sua altura é de uma estatura tão alta
A altura da saudade:
a saudade tem a cor dos olhos teus. É de um verde estonteante a contrastar com os edifícios sem cores que ficam atrás da gente quando a gente posa para fotos que pedimos a estranhos para tirar. Se eu olho rápido, seus olhos me parecem cinza.
A saudade tem 2 metros de altura, dá passos largos devagar, veste um casaco de frio comprido e preto, e parece que te abraçou a se prender em mim.
A saudade cortou os cabelos nos ombros, nunca mais tingiu os fios de castanho, deu explicação a mim.
A saudade subiu as escadas, como eu informei, para entrar na drogaria, mas esqueceu de comprar a escova de dente que tinha ido procurar. Subiu os degraus, entrou no supermercado, não teve pressa. Andou pelos corredores, se relacionou bem com a minha indecisão, pediu para eu escolher entre um produto e outro, e escolheu para nós duas: levar duas embalagens de húmus - já que eu gosto, leve duas. Ali mesmo, no supermercado, ela olhou as promoções, reforçando os esteriótipos de como são os alemães, sem saber que eu estava olhando. Ela olhou para mim e sorriu.
Nos perdíamos nos corredores - ela tinha ido arrumar uma caixa para carregar as comprar. Ela é de uma nacionalidade tão ágil e tão prática e tão eficiente. Eu fico pensando até onde esses esteriótipos são construções e a partir de onde são verdade.
A saudade tem uma presença tão suave! Dessa que vem e que fica. Ela, que incorpora o que a palavra saudade vem agora significar, com toda a sua estatura de 2 metros de altura, é sempre leve em seu andar. A sua presença parece um sussurro: ela fala tão baixo que eu adoro escutar e peço a ela para repetir para mim. Ei, me diz de novo o meu nome - você me chama de um jeito que só outra pessoa me chama. Para você, eu posso ser, sim, Marcía. Mas, meu nome é Márcia.
A saudade, nela, pega o percurso, espera o metro passar, se agacha para ficar mais parecida comigo no tamanho, ri de nós duas na rua, conversa com estranhos e é gentil. Meu deus, e os esteriótipos? Ora ela reforça, ora ela desconstrói - já sei: ela só performa o que é bom. Ela carrega a caixa com as nossas compras, entra no tram number 5 decorado com as fotos de Van Gogh depois de mim. Fica em pé, enquanto eu levo a nossa caixa, mas senta logo depois, à minha frente, de onde tira fotos minhas, que morro de vergonha, e de onde eu olho para ela sem piscar. Como pode ser assim tão linda? Eu a acho assim tão linda. Eu a vejo assim, porque foi assim que eu aprendi a olhar.
A saudade me ajuda a escolher o sabor do sorvete, mas nem toma. Escolhe pimentões vermelhos. Faz sua própria comida, do seu jeito. Senta à mesa, logo à minha frente, e começa a conversar. Dividimos segredos não ditos que agora são falados. Faz 8 anos desde que nos vimos pela primeira e última vez, no Wyoming, aquele lugar de neve. E nem parece. E nem parece, ela me escreveu depois.
A saudade tem voz e fala. E eu tenho ouvidos e ouço. Vez ou outra, recito seu nome: é estrangeiro, eu não ouso falar. Mas voce, menina, com a sua altura, toda estatura, e o seu caminhar, se chegar mais perto, vem.
E eu te chamo pelo nome. Aquele, que é segredo, mas você me contou.
a saudade tem a cor dos olhos teus. É de um verde estonteante a contrastar com os edifícios sem cores que ficam atrás da gente quando a gente posa para fotos que pedimos a estranhos para tirar. Se eu olho rápido, seus olhos me parecem cinza.
A saudade tem 2 metros de altura, dá passos largos devagar, veste um casaco de frio comprido e preto, e parece que te abraçou a se prender em mim.
A saudade cortou os cabelos nos ombros, nunca mais tingiu os fios de castanho, deu explicação a mim.
A saudade subiu as escadas, como eu informei, para entrar na drogaria, mas esqueceu de comprar a escova de dente que tinha ido procurar. Subiu os degraus, entrou no supermercado, não teve pressa. Andou pelos corredores, se relacionou bem com a minha indecisão, pediu para eu escolher entre um produto e outro, e escolheu para nós duas: levar duas embalagens de húmus - já que eu gosto, leve duas. Ali mesmo, no supermercado, ela olhou as promoções, reforçando os esteriótipos de como são os alemães, sem saber que eu estava olhando. Ela olhou para mim e sorriu.
Nos perdíamos nos corredores - ela tinha ido arrumar uma caixa para carregar as comprar. Ela é de uma nacionalidade tão ágil e tão prática e tão eficiente. Eu fico pensando até onde esses esteriótipos são construções e a partir de onde são verdade.
A saudade tem uma presença tão suave! Dessa que vem e que fica. Ela, que incorpora o que a palavra saudade vem agora significar, com toda a sua estatura de 2 metros de altura, é sempre leve em seu andar. A sua presença parece um sussurro: ela fala tão baixo que eu adoro escutar e peço a ela para repetir para mim. Ei, me diz de novo o meu nome - você me chama de um jeito que só outra pessoa me chama. Para você, eu posso ser, sim, Marcía. Mas, meu nome é Márcia.
A saudade, nela, pega o percurso, espera o metro passar, se agacha para ficar mais parecida comigo no tamanho, ri de nós duas na rua, conversa com estranhos e é gentil. Meu deus, e os esteriótipos? Ora ela reforça, ora ela desconstrói - já sei: ela só performa o que é bom. Ela carrega a caixa com as nossas compras, entra no tram number 5 decorado com as fotos de Van Gogh depois de mim. Fica em pé, enquanto eu levo a nossa caixa, mas senta logo depois, à minha frente, de onde tira fotos minhas, que morro de vergonha, e de onde eu olho para ela sem piscar. Como pode ser assim tão linda? Eu a acho assim tão linda. Eu a vejo assim, porque foi assim que eu aprendi a olhar.
A saudade me ajuda a escolher o sabor do sorvete, mas nem toma. Escolhe pimentões vermelhos. Faz sua própria comida, do seu jeito. Senta à mesa, logo à minha frente, e começa a conversar. Dividimos segredos não ditos que agora são falados. Faz 8 anos desde que nos vimos pela primeira e última vez, no Wyoming, aquele lugar de neve. E nem parece. E nem parece, ela me escreveu depois.
A saudade tem voz e fala. E eu tenho ouvidos e ouço. Vez ou outra, recito seu nome: é estrangeiro, eu não ouso falar. Mas voce, menina, com a sua altura, toda estatura, e o seu caminhar, se chegar mais perto, vem.
E eu te chamo pelo nome. Aquele, que é segredo, mas você me contou.
29 de set. de 2018
Meu silêncio não tenho motivo
O meu silêncio não tem motivo.
Não falo porque não tenho nada a escrever.
Tudo o que escrevo foi vivido, e o viver não tem limite. O viver não dá-me tempo. O viver por si só basta. O que resta é o escrever: por isso, parece resto. Mas não é. Mas, agora, tem sido.
Meu silêncio não tem motivo: não tenho nada a dizer. O que falar sobre o que não foi dito?
O que dizer sobre o que está feito?
Meu silêncio não tem motivo, mas, quando lembro da causa, até susto eu tomo. Assustei. E que susto!
Todo dia me assusto. Aliás, todo dia, não. Todo dia eu me assustei. Todo dia eu me assustava. Mas, como diz a conjugação do verbo, isso foi no passado. Me acostumei com esse modo de girar da vida de novo. Mas ainda há resquício de inocência em mim: vira e mexe eu esqueço e, então, eu me assusto.
Meu silêncio não tem motivo, e é isso: é o susto.
Eu não tenho motivo nenhum porque, se há, não é meu.
Não escrevi essa história, quem a viveu não foi eu. Tudo saiu do seu jeito porque eu saí antes. Não teve eu nessa participação e por isso saiu assim. Estou sendo repetitiva? A história, desse jeito assim contada, desse modo assim vivida ... é sua. E não sou eu.
Meu silêncio não tem motivo: eu olho e vejo e me lembro e fico sem motivo. Não há porquê, não há para quê. Não há mais reação porque reagir é fazer alguma coisa. E, nesse caso, fazer é um não ato. Aceitar é agir. Aceito.
Meu silêncio não tem motivo. Mas não há motivo suficiente, não há motivo existente para me fazer falar. Por isso, não escrevo.
Não há motivo. Você não é motivo, você não é motivo suficiente, você não é motivo existente... porque, se você vive, eu não tenho nem conhecimento. Mas creio que você deva, sim, daí, existir.
Mas, meu querido: meu silêncio não tem motivo. Não há motivo algum. Nenhum, mesmo. És querido.
Eis que falo: meu silêncio não tem motivo.
Não falo porque não tenho nada a escrever.
Tudo o que escrevo foi vivido, e o viver não tem limite. O viver não dá-me tempo. O viver por si só basta. O que resta é o escrever: por isso, parece resto. Mas não é. Mas, agora, tem sido.
Meu silêncio não tem motivo: não tenho nada a dizer. O que falar sobre o que não foi dito?
O que dizer sobre o que está feito?
Meu silêncio não tem motivo, mas, quando lembro da causa, até susto eu tomo. Assustei. E que susto!
Todo dia me assusto. Aliás, todo dia, não. Todo dia eu me assustei. Todo dia eu me assustava. Mas, como diz a conjugação do verbo, isso foi no passado. Me acostumei com esse modo de girar da vida de novo. Mas ainda há resquício de inocência em mim: vira e mexe eu esqueço e, então, eu me assusto.
Meu silêncio não tem motivo, e é isso: é o susto.
Eu não tenho motivo nenhum porque, se há, não é meu.
Não escrevi essa história, quem a viveu não foi eu. Tudo saiu do seu jeito porque eu saí antes. Não teve eu nessa participação e por isso saiu assim. Estou sendo repetitiva? A história, desse jeito assim contada, desse modo assim vivida ... é sua. E não sou eu.
Meu silêncio não tem motivo: eu olho e vejo e me lembro e fico sem motivo. Não há porquê, não há para quê. Não há mais reação porque reagir é fazer alguma coisa. E, nesse caso, fazer é um não ato. Aceitar é agir. Aceito.
Meu silêncio não tem motivo. Mas não há motivo suficiente, não há motivo existente para me fazer falar. Por isso, não escrevo.
Não há motivo. Você não é motivo, você não é motivo suficiente, você não é motivo existente... porque, se você vive, eu não tenho nem conhecimento. Mas creio que você deva, sim, daí, existir.
Mas, meu querido: meu silêncio não tem motivo. Não há motivo algum. Nenhum, mesmo. És querido.
Eis que falo: meu silêncio não tem motivo.
16 de fev. de 2018
Você se senta logo à minha frente
Você se senta logo à minha frente: desta vez você não está indo, nem está chegando, não está com pressa, não se esconde nem se despede - você senta logo à minha frente.
Ali está a mesa e, na ponta, você se senta logo à minha frente.
Eu olho você e olhar você é como te ver: eu te vejo outra vez. Eu te vejo mais uma vez, e não apenas uma vez somente.
Você se senta logo à minha frente com um sorriso largo. É isso que sai de você quando você se senta e deixa eu te ver: eu olho e vejo o seu sorriso.
Dessa vez, você se senta logo à minha frente. Você, cujos passos nunca contei, cujo paradeiro não sei, cujos dias me são todos iguais mas diferentes pois não sei em qual deles você vive.
Ali, você se senta logo à minha frente. Você não corre, e não anda, e não caminha, e não vai. Você fica, e se senta, e logo à minha frente.
Você, logo à minha frente. Você, que está sempre à minha frente, pois assim eu te vejo. Você, sempre à frente, só que lá atrás, num lugar que eu trouxe comigo. Você, sim, você: à minha frente, só que atrás.
Ali está a mesa e, na ponta, você se senta logo à minha frente.
Eu olho você e olhar você é como te ver: eu te vejo outra vez. Eu te vejo mais uma vez, e não apenas uma vez somente.
Você se senta logo à minha frente com um sorriso largo. É isso que sai de você quando você se senta e deixa eu te ver: eu olho e vejo o seu sorriso.
Dessa vez, você se senta logo à minha frente. Você, cujos passos nunca contei, cujo paradeiro não sei, cujos dias me são todos iguais mas diferentes pois não sei em qual deles você vive.
Ali, você se senta logo à minha frente. Você não corre, e não anda, e não caminha, e não vai. Você fica, e se senta, e logo à minha frente.
Você, logo à minha frente. Você, que está sempre à minha frente, pois assim eu te vejo. Você, sempre à frente, só que lá atrás, num lugar que eu trouxe comigo. Você, sim, você: à minha frente, só que atrás.
26 de nov. de 2017
Buda e Peste formam um só lugar: Budapeste
Aquele era um lugar como outro qualquer: só que diferente.
Era mais perto, só que mais longe. Era também mais monocromático: sim, Budapeste era de uma cor só, e a sua cor era amarelo. Todos os lugares eram amarelos, até os cantinhos eram amarelos, e as esquinas eram amarelas ou sem cor nenhuma. Se havia cor, era eu quem colocava. Eu.
Budapeste era como lugar nenhum: até hoje não acredito que eu tenha chegado até lá. Que eu tenha decido no aeroporto, atravessado a porta, entrado em um táxi e atravessado a cidade à noite, me sentindo em um livro de história no capítulo a partir da segunda guerra mundial - e depois.
Os dias que passaram me trouxeram a saudade de quem eu tinha sido, das pessoas que cruzaram o meu caminho, das que tem estado aqui até hoje, dos lugares escondidos. Do caderno no qual eu escrevia à beira do Danúbio, de capa listrada azul claro, que custou 0,50 centavos. Budapeste era tao barata e eu era milionária, como sempre fui, só que mais, só que no instante agora, naquele momento.
Quando Budapeste passa bem à minha frente, sinto saudade do medo que eu sentia; da língua que, para mim, era xingada; das linhas de metrô que me deixavam perdida no pensar e nas cores, mas me levavam aos lugares; dos passeios com as pessoas que me levavam pela mão; das comidas e sorvetes baratos; das passagens de trem, ônibus, avião a preços irrisórios; da escola de dança na esquina da minha casa, que mais parecia um edifício de tortura praticada pelo governo; da família de ciganos que se mudou para o bairro e chocou o restante da população; do bairro VIII, o mais temido e, por isso, o que mais despertava o meu interesse; do exagero das pessoas ao contar suas histórias; do mau humor estampado no rosto das pessoas e eu, na doçura de ser quem sou; as janelas que se fechavam até nas mínimas frechas e fazia qualquer quarto parecer sala de cinema no meio da tarde; dos passos sem rumo; das árvores com formatos estranhos; de só saber a sigla para as ruas; do parque ao lado e ao fim da rua e logo à frente e em todo lugar; o "melhor bolo da Hungria" que, na verdade, não tinha gosto de nada; da casa das pessoas; das barracas nas ruas; do alívio de encontrar uma padaria; das pessoas que sorriam para mim sem dentes e eu ficava horrorizada, mas sorria de volta, porque sou um amor de pessoa com dentes lindos, brancos e perfeitos, ainda mais na Hungria; de nunca comer nada porque eu achava tudo gorduroso demais; de não comer nada porque eu só sabia cozinhar macarrão; do pão com molho e presunto que, de repente, virou a coisa mais gostosa que eu conhecia; dos infinitos salames que colocaram na minha geladeira e eu nunca comi; da janela que ia do teto ao chão e me fazia sentir medo à noite; do armário embutido no fim da cozinha que era a travessia para outro mundo; do gato que sempre vinha me visitar; de pendurar roupa no varal e morrer vergonha do meu vizinho ver; dos jardineiros mexicanos que eram, no máximo, ciganos; das falcatruas do governo; das amigas que eu fiz; dos amores por quem me apaixonei, vivi e trouxe comigo; da catedral ao fim da rua com suas torres onipotentes (não é bem essa a palavra); de comer cheesecake em qualquer café; dos pães doces que eram bonitos e gostosos, mas me preocupavam por serem de farinha branca; das bicicletas; de caminhar o dia inteiro; da praça dos drogados; do homem que escondia um rato dentro de suas roupas; dos ônibus da época da união soviética que ainda rodavam pelo centro; de correr de madrugada até chegar no meu portão, quando eu voltava sozinha para casa; das bebidas baratas que eu nem bebia; de passar na frente ao cemitério que um dia eu iria visitar; das construções na rua que só acrescentavam àquela confusão toda; dos olhares estrangeiros; de nunca saber em qual entrada do metrô entrar, nem em qual saída sair; de ir ao supermercado e não entender nada; de dividir a chave e ficar presa do lado de fora de casa; de ir comer hambúrguer no meio da semana, de um dia qualquer que era dia especial só porque existíamos; de planejar viagens que, antigamente, pareciam uma excursão para outro planeta; de ouvir as pessoas falarem e contarem os casos de sua vida quando, na verdade, eu só queria ficar ali, sozinha, olhando e sendo; de como estacionavam os carros no passeio e eu achava um absurdo; de comprar chocolate só às sextas-feiras; de tomar sorvete de baunilha que me dava dor de barriga; de ir ao Aldi e achar tudo barato; de toda rua parecer a última parada da civilização; de infinitas lindas pontes que cruzávamos sem parar; de sair à noite para dançar e congelar de frio, querendo só voltar para casa; da pizza de madrugada que era quase de graça; das igrejas ortodoxas nas quais me aventurava e onde me mandavam usar véu sobre os meus cabelos; da revista de graça em inglês, que era a única coisa possível de ler além dos livros que trouxe comigo; de ser amiga dos amigos das minhas amigas; dos convites inusitados; da coragem de ser quem é.
Era mais perto, só que mais longe. Era também mais monocromático: sim, Budapeste era de uma cor só, e a sua cor era amarelo. Todos os lugares eram amarelos, até os cantinhos eram amarelos, e as esquinas eram amarelas ou sem cor nenhuma. Se havia cor, era eu quem colocava. Eu.
Budapeste era como lugar nenhum: até hoje não acredito que eu tenha chegado até lá. Que eu tenha decido no aeroporto, atravessado a porta, entrado em um táxi e atravessado a cidade à noite, me sentindo em um livro de história no capítulo a partir da segunda guerra mundial - e depois.
Os dias que passaram me trouxeram a saudade de quem eu tinha sido, das pessoas que cruzaram o meu caminho, das que tem estado aqui até hoje, dos lugares escondidos. Do caderno no qual eu escrevia à beira do Danúbio, de capa listrada azul claro, que custou 0,50 centavos. Budapeste era tao barata e eu era milionária, como sempre fui, só que mais, só que no instante agora, naquele momento.
Quando Budapeste passa bem à minha frente, sinto saudade do medo que eu sentia; da língua que, para mim, era xingada; das linhas de metrô que me deixavam perdida no pensar e nas cores, mas me levavam aos lugares; dos passeios com as pessoas que me levavam pela mão; das comidas e sorvetes baratos; das passagens de trem, ônibus, avião a preços irrisórios; da escola de dança na esquina da minha casa, que mais parecia um edifício de tortura praticada pelo governo; da família de ciganos que se mudou para o bairro e chocou o restante da população; do bairro VIII, o mais temido e, por isso, o que mais despertava o meu interesse; do exagero das pessoas ao contar suas histórias; do mau humor estampado no rosto das pessoas e eu, na doçura de ser quem sou; as janelas que se fechavam até nas mínimas frechas e fazia qualquer quarto parecer sala de cinema no meio da tarde; dos passos sem rumo; das árvores com formatos estranhos; de só saber a sigla para as ruas; do parque ao lado e ao fim da rua e logo à frente e em todo lugar; o "melhor bolo da Hungria" que, na verdade, não tinha gosto de nada; da casa das pessoas; das barracas nas ruas; do alívio de encontrar uma padaria; das pessoas que sorriam para mim sem dentes e eu ficava horrorizada, mas sorria de volta, porque sou um amor de pessoa com dentes lindos, brancos e perfeitos, ainda mais na Hungria; de nunca comer nada porque eu achava tudo gorduroso demais; de não comer nada porque eu só sabia cozinhar macarrão; do pão com molho e presunto que, de repente, virou a coisa mais gostosa que eu conhecia; dos infinitos salames que colocaram na minha geladeira e eu nunca comi; da janela que ia do teto ao chão e me fazia sentir medo à noite; do armário embutido no fim da cozinha que era a travessia para outro mundo; do gato que sempre vinha me visitar; de pendurar roupa no varal e morrer vergonha do meu vizinho ver; dos jardineiros mexicanos que eram, no máximo, ciganos; das falcatruas do governo; das amigas que eu fiz; dos amores por quem me apaixonei, vivi e trouxe comigo; da catedral ao fim da rua com suas torres onipotentes (não é bem essa a palavra); de comer cheesecake em qualquer café; dos pães doces que eram bonitos e gostosos, mas me preocupavam por serem de farinha branca; das bicicletas; de caminhar o dia inteiro; da praça dos drogados; do homem que escondia um rato dentro de suas roupas; dos ônibus da época da união soviética que ainda rodavam pelo centro; de correr de madrugada até chegar no meu portão, quando eu voltava sozinha para casa; das bebidas baratas que eu nem bebia; de passar na frente ao cemitério que um dia eu iria visitar; das construções na rua que só acrescentavam àquela confusão toda; dos olhares estrangeiros; de nunca saber em qual entrada do metrô entrar, nem em qual saída sair; de ir ao supermercado e não entender nada; de dividir a chave e ficar presa do lado de fora de casa; de ir comer hambúrguer no meio da semana, de um dia qualquer que era dia especial só porque existíamos; de planejar viagens que, antigamente, pareciam uma excursão para outro planeta; de ouvir as pessoas falarem e contarem os casos de sua vida quando, na verdade, eu só queria ficar ali, sozinha, olhando e sendo; de como estacionavam os carros no passeio e eu achava um absurdo; de comprar chocolate só às sextas-feiras; de tomar sorvete de baunilha que me dava dor de barriga; de ir ao Aldi e achar tudo barato; de toda rua parecer a última parada da civilização; de infinitas lindas pontes que cruzávamos sem parar; de sair à noite para dançar e congelar de frio, querendo só voltar para casa; da pizza de madrugada que era quase de graça; das igrejas ortodoxas nas quais me aventurava e onde me mandavam usar véu sobre os meus cabelos; da revista de graça em inglês, que era a única coisa possível de ler além dos livros que trouxe comigo; de ser amiga dos amigos das minhas amigas; dos convites inusitados; da coragem de ser quem é.
4 de nov. de 2017
Minha pele é feita de aurora
Eu não saberia do que teria sido feita se não fosse o cair do dia, aquela hora da aurora, aquele vazio dos dias gelados e o motivo de ser.
Eu era feita do cair do sol, a caminho da noite. Se me visse, notaria as pegadas numa camada espessa branca a cair a madrugada inteira.
Minha pele é feita de aurora e, embora de dia, feita nas primeiras horas da manhã - quando eu ainda nem existia.
Se olhasse mais de perto, veria o brilho no canto. Se houvesse luz do sol, eu ficava transparente. Se fosse noite, eu brilhava. Mas estava sempre tudo ali: sempre tão eu, esse meu jeito de ser.
Minha pele é feita de aurora de uma hora que todo mundo esqueceu: era o meio dia da meia noite, quando todos andavam e cantavam e acendiam as luzes que lhes moram por dentro e corriam para pegar o trem que seguia na vida e mudavam as cores como se tudo fosse apenas folhas de um calendário. Era ali, naquela hora. Onde tudo acontecia e o mundo apenas girava.
Minha pele é feita de aurora e eu estou só adivinhando: a verdade é que não sei que horas são auroras, nem quais horas serão. Tudo que vi foi um escrito no caminhão que andava pela via e, como não gosto de sol, presumi que fosse de noite. É à noite que vem o cair do dia, a hora que a gente se levanta.
Por último, eis minha pele, feita de aurora: se chegares perto e tentares me ler, verás o nome de cada um: pessoas que passaram, mas ficaram. Em mim: naquela pele feita de aurora.
Eu era feita do cair do sol, a caminho da noite. Se me visse, notaria as pegadas numa camada espessa branca a cair a madrugada inteira.
Minha pele é feita de aurora e, embora de dia, feita nas primeiras horas da manhã - quando eu ainda nem existia.
Se olhasse mais de perto, veria o brilho no canto. Se houvesse luz do sol, eu ficava transparente. Se fosse noite, eu brilhava. Mas estava sempre tudo ali: sempre tão eu, esse meu jeito de ser.
Minha pele é feita de aurora de uma hora que todo mundo esqueceu: era o meio dia da meia noite, quando todos andavam e cantavam e acendiam as luzes que lhes moram por dentro e corriam para pegar o trem que seguia na vida e mudavam as cores como se tudo fosse apenas folhas de um calendário. Era ali, naquela hora. Onde tudo acontecia e o mundo apenas girava.
Minha pele é feita de aurora e eu estou só adivinhando: a verdade é que não sei que horas são auroras, nem quais horas serão. Tudo que vi foi um escrito no caminhão que andava pela via e, como não gosto de sol, presumi que fosse de noite. É à noite que vem o cair do dia, a hora que a gente se levanta.
Por último, eis minha pele, feita de aurora: se chegares perto e tentares me ler, verás o nome de cada um: pessoas que passaram, mas ficaram. Em mim: naquela pele feita de aurora.
29 de out. de 2017
Partir não é deixar de ser
Partir não é deixar de ser, porque tudo continua sendo, mesmo que apenas existindo.
Partir não é deixar de ser: é só andar quatrocentos passos à frente e, depois, virar à esquerda. Poderia também ser à direita. Acho que tanto faz.
Partir não é deixar de ser, porque partistes deste mundo e mesmo assim você tem estado: hoje mesmo falamos de você. Ou melhor, escrevemos. Ela me perguntou como você era, como você era comigo e como éramos juntos. Tudo uma questão de ser: logo você, que nunca deixou de ter sido.
Partir não é deixar de ser: partir pode ser como começar um outro sentido.
Você partiu e, partindo-nos todos ao meio, sempre continuou, pelo menos para mim, a ser inteiro. Você, o mais inteiro de todos os homens.
Partir não é nunca deixar de ser: olha tudo o que você tem sido, mesmo ausente, mesmo tão longe, mesmo estando sem estar.
A voce, que partiu mas não foi partido: eu espero que, ainda que partindo, estejas a caminhar. Olho de longe os seus passos de pés abertos, vendo aonde eles vão te levar. Você, que vai, parte mas continua: partir não é deixar de ser. E, você, só tem sido. Tanto.
Partir não é deixar de ser: é só andar quatrocentos passos à frente e, depois, virar à esquerda. Poderia também ser à direita. Acho que tanto faz.
Partir não é deixar de ser, porque partistes deste mundo e mesmo assim você tem estado: hoje mesmo falamos de você. Ou melhor, escrevemos. Ela me perguntou como você era, como você era comigo e como éramos juntos. Tudo uma questão de ser: logo você, que nunca deixou de ter sido.
Partir não é deixar de ser: partir pode ser como começar um outro sentido.
Você partiu e, partindo-nos todos ao meio, sempre continuou, pelo menos para mim, a ser inteiro. Você, o mais inteiro de todos os homens.
Partir não é nunca deixar de ser: olha tudo o que você tem sido, mesmo ausente, mesmo tão longe, mesmo estando sem estar.
A voce, que partiu mas não foi partido: eu espero que, ainda que partindo, estejas a caminhar. Olho de longe os seus passos de pés abertos, vendo aonde eles vão te levar. Você, que vai, parte mas continua: partir não é deixar de ser. E, você, só tem sido. Tanto.
19 de out. de 2017
De repente, uma batida na porta
Era de repente, e era uma batida na porta.
Uma batida na porta tinha todos os sons bonitos que eu ouvira na vida: a música dos meus grupos musicais, a sua voz do seu jeito, os sotaques que eu achava bonito, as palavras que eu ouvi e me marcaram, o caminhar dos passos das pessoas que me inspiram e o barulho do vento num dia frio à noite.
Uma batida na porta era algo tão suave que eu até esquecia que existia, que viria, que chegava. Era também tão intensa - mas nunca pesava, porque sempre leve - que me abria os olhos e me fazia olhar.
Uma batida na porta chegou num dia que eu nem sabia que existia: mas estava lá.
Eu estava rodeando o quarteirão, cantando do meu jeito aquelas meia melodias que soavam inteiras, segurando um copo d'água na mão, pesquisando as estatísticas do governo, planejando a próxima viagem, sentido todo o sentimento que cabia dentro de mim, pondo a roupa para lavar, dirigindo meu carro até o supermercado, correndo à noite, dormindo de madrugada, visitando a livraria, às vezes ficando indignada, indo ao cinema toda semana, escrevendo uma coisa ou outra... - mas o mais que eu estava fazendo quando chegara a batida na porta era vivendo.
Uma batida na porta veio do lado de lá: antes que ela visse que eu a vira eu já estava olhando.
E sentindo, e pensando, e pedindo, e desejando, e esperando, e desistindo, e acreditando, e criando, e esquecendo, e duvidando, e o que eu mais fazia: eu estava vivendo.
Uma batida na porta nem parece, mas tem uma cor: é azul.
Uma batida na porta nem parece, mas aparece.
Uma batida na porta é.
Uma batida na porta tinha todos os sons bonitos que eu ouvira na vida: a música dos meus grupos musicais, a sua voz do seu jeito, os sotaques que eu achava bonito, as palavras que eu ouvi e me marcaram, o caminhar dos passos das pessoas que me inspiram e o barulho do vento num dia frio à noite.
Uma batida na porta era algo tão suave que eu até esquecia que existia, que viria, que chegava. Era também tão intensa - mas nunca pesava, porque sempre leve - que me abria os olhos e me fazia olhar.
Uma batida na porta chegou num dia que eu nem sabia que existia: mas estava lá.
Eu estava rodeando o quarteirão, cantando do meu jeito aquelas meia melodias que soavam inteiras, segurando um copo d'água na mão, pesquisando as estatísticas do governo, planejando a próxima viagem, sentido todo o sentimento que cabia dentro de mim, pondo a roupa para lavar, dirigindo meu carro até o supermercado, correndo à noite, dormindo de madrugada, visitando a livraria, às vezes ficando indignada, indo ao cinema toda semana, escrevendo uma coisa ou outra... - mas o mais que eu estava fazendo quando chegara a batida na porta era vivendo.
Uma batida na porta veio do lado de lá: antes que ela visse que eu a vira eu já estava olhando.
E sentindo, e pensando, e pedindo, e desejando, e esperando, e desistindo, e acreditando, e criando, e esquecendo, e duvidando, e o que eu mais fazia: eu estava vivendo.
Uma batida na porta nem parece, mas tem uma cor: é azul.
Uma batida na porta nem parece, mas aparece.
Uma batida na porta é.
2 de out. de 2017
E se amanhã o medo
E se amanhã o medo?
Parece que eu nem terminei de falar, mas é frase completa.
O som da entonação nos diria que é pergunta feita. Mas eu nem ouso - nem ouso - perguntar.
E se amanhã o medo ... eu paro e olho uma rua ali na esquina que é quase aqui agora.
E se amanhã o medo ... eu viro para o meu lado esquerdo, sigo reto e não caminho. Dei uns passos cor azul-piscina, abaixei o olhar. Era amanhã de novo, mas parecia hoje em dia.
Hoje em dia, que é quase de noite: olho a hora no relógio. Já reparou como as horas são sempre uma, sempre únicas e sempre singulares? Ainda que sejam duas horas, essa hora é só uma: ela é só ela. Inteirinha. Ainda que seja um quarto de hora. Ou meio dia. Ou quinze para as três. E assim, inteiros, somos todos nós - alguns, mais do que os outros. E, entre esses alguns, você e eu.
Mas vamos voltar para o amanhã e o medo que está hoje: o medo não é, mas ele está. Está aqui neste momento. Está estático. Anda em ondas em seu movimento. Vem e bate de repente, nos sacode até nos acordar: veja e olha, diz o medo.
Quando eu paro em uma esquina, eu paro e penso: e se amanhã o medo?
E se amanhã amanhecer de dia, bem na hora em que eu acordar? E se eu pisar na grama e senti-la? E se eu atravessar a rua enquanto os carros estão parados? E se eu tiver tempo e chance e sensibilidade para olhar os detalhes daquele tom de cor em que foi pintado um muro sem vida? -- Ah! E se amanhã o medo?!
Eu me chamo um nome e sou. Eu sou uma pessoa vivida, viva, vivente e vivaz. Muitos dizem que o verbo é existir, mas eu digo: vá além.
E se o amanhã chegar, eu vou olhar e sentir. Eu vou olhar e parar. Eu vou olhar e repetir o nome enquanto escuto a minha voz.
E se amanhã o medo chegar?
Parece que eu nem terminei de falar, mas é frase completa.
O som da entonação nos diria que é pergunta feita. Mas eu nem ouso - nem ouso - perguntar.
E se amanhã o medo ... eu paro e olho uma rua ali na esquina que é quase aqui agora.
E se amanhã o medo ... eu viro para o meu lado esquerdo, sigo reto e não caminho. Dei uns passos cor azul-piscina, abaixei o olhar. Era amanhã de novo, mas parecia hoje em dia.
Hoje em dia, que é quase de noite: olho a hora no relógio. Já reparou como as horas são sempre uma, sempre únicas e sempre singulares? Ainda que sejam duas horas, essa hora é só uma: ela é só ela. Inteirinha. Ainda que seja um quarto de hora. Ou meio dia. Ou quinze para as três. E assim, inteiros, somos todos nós - alguns, mais do que os outros. E, entre esses alguns, você e eu.
Mas vamos voltar para o amanhã e o medo que está hoje: o medo não é, mas ele está. Está aqui neste momento. Está estático. Anda em ondas em seu movimento. Vem e bate de repente, nos sacode até nos acordar: veja e olha, diz o medo.
Quando eu paro em uma esquina, eu paro e penso: e se amanhã o medo?
E se amanhã amanhecer de dia, bem na hora em que eu acordar? E se eu pisar na grama e senti-la? E se eu atravessar a rua enquanto os carros estão parados? E se eu tiver tempo e chance e sensibilidade para olhar os detalhes daquele tom de cor em que foi pintado um muro sem vida? -- Ah! E se amanhã o medo?!
Eu me chamo um nome e sou. Eu sou uma pessoa vivida, viva, vivente e vivaz. Muitos dizem que o verbo é existir, mas eu digo: vá além.
E se o amanhã chegar, eu vou olhar e sentir. Eu vou olhar e parar. Eu vou olhar e repetir o nome enquanto escuto a minha voz.
E se amanhã o medo chegar?
9 de set. de 2017
O tempo que o tempo tem
Se paro para pensar no tempo que o tempo tem...
Me lembro que ainda ontem era outro dia. Em outro ano, e outra época, na mesma festa e em outro lugar.
O hoje é o ontem que acontece hoje de novo. Ainda ontem isso tudo era amanhã. Mas, hoje, já é hoje.
O tempo que o tempo tem leva consigo um pouco da gente. Mas eu sei que deixa muito de si, e de mim, e do outro, e de nós, e de todos. O mundo inteiro cabe no tempo. O tempo quase que não cabe em si.
Se pensássemos no tempo que o tempo tem... não teríamos mais tempo.
Eu hoje acordei e fui viver tudo de novo. Tudo outra vez. Mas como se fosse o primeiro dia. Todo dia que eu acordo é o primeiro dia.
Eu pensei que dentro de 5 minutos caberia uma eternidade: era setembro e eu ainda não tinha encontrado você, minha amiga, que hoje sente falta de mim. Hoje é setembro de novo, já te encontrei e nos separamos, porque cada um colocou o pé num continente - mas nas aulas de história era um mesmo.
Hoje é setembro e há 7 anos foi setembro de novo. Ano que vem, se a vida chegar, será setembro outra vez, e eu sei que setembro se repetirá até depois que a gente for embora.
Outro dia era esse mesmo dia de hoje, só que outro dia, ainda que do mesmo nome e mesmo número. Fazia um pouco de frio mas eu gostava de sentir um pouco de frio, então eu não vesti blusa de frio alguma - eu estava sendo eu. E chovia. Ou melhor, chuviscava. Havia umas árvores no caminho que eu nunca esqueci a cor: eram verde escuro. Uma bicicleta parada na esquina, e carros estacionados na diagonal. Atrás, havia os prédios de tijolos que eu bati o olho e os vi para sempre: jurei que iria desenhá-los em folha de papel, como eu fazia quando era jovem, mas desenhei mesmo foi na memória. Éramos cinco, depois éramos sei, e então sete. Mas faltava mais um: você, que faria de nós oito, e de mim inteira, e de nós dois quase um, só que dois, porque dois é número inteiro: são duas pessoas inteiras juntas. Você não estava, mas já era presente. Eu já te notava, mas não ousava te olhar. Era então onze horas da noite e você chegaste com um cartaz em mãos: e eu o vi, mas olhei mesmo foi para os seus olhos e o seu cabelo e o seu sorriso e o seu jeito de andar e o tom da sua voz e as palavras que você falava e o modo como você discorria e o seu cheiro que eu sentia. Eu só notei, e continuei sentada no sofá.
O tempo que o tempo tem, penso eu, deve caber dentro de uma caixinha. Eu fico pensando se o tempo tem mãos: que é para se segurar.
Se não, vivemo-lo. Até o último minuto, e todos os segundos, até o último dia da vida, e o que foi ontem, e o que é hoje, e o que já é quase amanhã. Vivamos, enquanto é tempo, o tempo que o tempo tem.
E, enquanto isso, o tempo entre os tempos, aquele no meio do caminho, entre o passado e o futuro: vivamos.
Me lembro que ainda ontem era outro dia. Em outro ano, e outra época, na mesma festa e em outro lugar.
O hoje é o ontem que acontece hoje de novo. Ainda ontem isso tudo era amanhã. Mas, hoje, já é hoje.
O tempo que o tempo tem leva consigo um pouco da gente. Mas eu sei que deixa muito de si, e de mim, e do outro, e de nós, e de todos. O mundo inteiro cabe no tempo. O tempo quase que não cabe em si.
Se pensássemos no tempo que o tempo tem... não teríamos mais tempo.
Eu hoje acordei e fui viver tudo de novo. Tudo outra vez. Mas como se fosse o primeiro dia. Todo dia que eu acordo é o primeiro dia.
Eu pensei que dentro de 5 minutos caberia uma eternidade: era setembro e eu ainda não tinha encontrado você, minha amiga, que hoje sente falta de mim. Hoje é setembro de novo, já te encontrei e nos separamos, porque cada um colocou o pé num continente - mas nas aulas de história era um mesmo.
Hoje é setembro e há 7 anos foi setembro de novo. Ano que vem, se a vida chegar, será setembro outra vez, e eu sei que setembro se repetirá até depois que a gente for embora.
Outro dia era esse mesmo dia de hoje, só que outro dia, ainda que do mesmo nome e mesmo número. Fazia um pouco de frio mas eu gostava de sentir um pouco de frio, então eu não vesti blusa de frio alguma - eu estava sendo eu. E chovia. Ou melhor, chuviscava. Havia umas árvores no caminho que eu nunca esqueci a cor: eram verde escuro. Uma bicicleta parada na esquina, e carros estacionados na diagonal. Atrás, havia os prédios de tijolos que eu bati o olho e os vi para sempre: jurei que iria desenhá-los em folha de papel, como eu fazia quando era jovem, mas desenhei mesmo foi na memória. Éramos cinco, depois éramos sei, e então sete. Mas faltava mais um: você, que faria de nós oito, e de mim inteira, e de nós dois quase um, só que dois, porque dois é número inteiro: são duas pessoas inteiras juntas. Você não estava, mas já era presente. Eu já te notava, mas não ousava te olhar. Era então onze horas da noite e você chegaste com um cartaz em mãos: e eu o vi, mas olhei mesmo foi para os seus olhos e o seu cabelo e o seu sorriso e o seu jeito de andar e o tom da sua voz e as palavras que você falava e o modo como você discorria e o seu cheiro que eu sentia. Eu só notei, e continuei sentada no sofá.
O tempo que o tempo tem, penso eu, deve caber dentro de uma caixinha. Eu fico pensando se o tempo tem mãos: que é para se segurar.
Se não, vivemo-lo. Até o último minuto, e todos os segundos, até o último dia da vida, e o que foi ontem, e o que é hoje, e o que já é quase amanhã. Vivamos, enquanto é tempo, o tempo que o tempo tem.
E, enquanto isso, o tempo entre os tempos, aquele no meio do caminho, entre o passado e o futuro: vivamos.
12 de jul. de 2017
Entre nós dois anda o mundo
Transcrição de coisas pensadas e escritas - só que no meu diário:
Eu queria viver ao teu lado, porque isso significaria não apenas existir.
Queria te abraçar por inteiro, até se desfazer de mim - vai ver, isso é tornar-me eu mesma.
Eu queria ir comprar leite na padaria contigo, porque o leite acabou. Experimentar doces exóticos só porque não têm gosto de nada. Caminhar segurando as suas mãos, ou estar sempre a uma distância em que eu pudesse tocá-las. Eu queria ter o meu cabelo grande só para você tocá-lo, só para você olhar e ver, só para lavá-lo apenas quando tomo banho contigo. Eu queria pintar as unhas só para vê-las descascar e ouvir que você não liga - até gosta.
Eu queria ter você só porque, assim, sou um pouquinho mais eu.
Eu queria que chegasse de noite só para saber que as horas anteriores àquele momento foram vividas ao seu lado.
Queria que você comentasse comigo uma coisa sem importância, só para eu saber o que veem seus olhos e poder notar suas observações sobre o tudo e sobre o nada. Eu queria te encontrar num café no meio da tarde, só para ousar pensar e sentir que o mundo é todo meu.
Eu queria saber o que é passar dificuldades financeiras - mas ao seu lado. Queria virar o pé ao seu lado. Perder as chaves de casa enquanto estivesse contigo. Até quebrar o braço - eu não gostaria, mas teria coragem, se fosse ao seu lado. Ser xingada na estação de metrô. Não entender direito o que o dono da venda da esquina falou. Perder-me em meio às opções no supermercado. Não achar o caminho de volta para um lugar que eu chamaria de casa. Eu queria escolher a profissão errada, cortar o cabelo e me arrepender, quebrar a torneira da cozinha e estourar o encanamento. Queimar o jantar. Nunca ter coragem de ir aos correios sozinha por medo - mas, tudo, ao seu lado.
Eu queria a glória de você participar, e não apenas existir.
De você participar um pouquinho de mim e de quem eu sou. De poder lhe dizer como andam as coisas, ainda que elas não andem. De te contar meus medos só para você rir e eu achar que está tudo bem. Eu queria te dar um livro de presente - aliás, eu queria te dar todos os bons livros de presente. E, em cada um deles, te escrever uma dedicatória só minha, só para você. Queria te comprar comida numa barraca de rua. Queria te mostrar os caminhos alternativos que faço só para fugir do comum - literal e simbolicamente.
Eu queria poder vestir uma roupa e pedir a sua opinião, sabendo que você não dá a mínima. Queria ficar resfriada ao seu lado - ao lado de você, que já ficou resfriado perto de mim.
Eu queria te contar que há pouco comprei o livro da escritora XXX sem sequer saber que ela tem o mesmo nome que XXX. Que coincidência! - e eu nem posso te contar.
Eu queria saber como é o lugar que você mora, entrar na sua casa e te ver viver.
Queria saber como são as janelas e, se há detalhes, como eles são. Se não há, eu os crio. Queria saber se, havendo elevador, você pega a escada. Eu queria saber a cor da roupa que você está usando hoje - ah, como eu queria! E todos os dias eu te perguntaria a cor de novo, e todos os dias - até o amanhã, seriam hoje.
Eu queria saber o nome do xampu que você usa no cabelo, a marca do seu sabão em pó, quantas vezes você mastiga a comida: as coisas triviais são as mais únicas e mais importantes. Elas nos fazem ser quem somos.
Eu queria saber quantas vezes no ano você tomou sorvete. Qual foi a última coisa que você leu. O que acha do governo.
Queria que você me escrevesse: uma carta, um cartão ou apenas meu nome.
Queria que, quando você me lesse, saísse de si e visitasse a mim.
Eu queria que você me conhecesse. Me soubesse. Me entendesse. Me visse. Me sentisse. Me ligasse. Me convidasse. Me dissesse (esses verbos me deixam zonza).
Eu queria que você fosse você. Apenas você, todo e todinho.
Eu queria saber qual é o seu peso, só para compará-lo ao meu. Sabe quanto eu peso? Neste momento, 55kg, mas o meu peso era 52 kg.
Eu queria saber a sua altura, só para eu olhar para as coisas, para os prédios e para as pessoas e saber que você é mais alto - você será sempre o mais alto. E também, para saber se aquelas coisas altas, como nas gôndolas do supermercado, você pegaria para mim - só que na vida.
Eu queria viver ao teu lado, porque isso significaria não apenas existir.
Queria te abraçar por inteiro, até se desfazer de mim - vai ver, isso é tornar-me eu mesma.
Eu queria ir comprar leite na padaria contigo, porque o leite acabou. Experimentar doces exóticos só porque não têm gosto de nada. Caminhar segurando as suas mãos, ou estar sempre a uma distância em que eu pudesse tocá-las. Eu queria ter o meu cabelo grande só para você tocá-lo, só para você olhar e ver, só para lavá-lo apenas quando tomo banho contigo. Eu queria pintar as unhas só para vê-las descascar e ouvir que você não liga - até gosta.
Eu queria ter você só porque, assim, sou um pouquinho mais eu.
Eu queria que chegasse de noite só para saber que as horas anteriores àquele momento foram vividas ao seu lado.
Queria que você comentasse comigo uma coisa sem importância, só para eu saber o que veem seus olhos e poder notar suas observações sobre o tudo e sobre o nada. Eu queria te encontrar num café no meio da tarde, só para ousar pensar e sentir que o mundo é todo meu.
Eu queria saber o que é passar dificuldades financeiras - mas ao seu lado. Queria virar o pé ao seu lado. Perder as chaves de casa enquanto estivesse contigo. Até quebrar o braço - eu não gostaria, mas teria coragem, se fosse ao seu lado. Ser xingada na estação de metrô. Não entender direito o que o dono da venda da esquina falou. Perder-me em meio às opções no supermercado. Não achar o caminho de volta para um lugar que eu chamaria de casa. Eu queria escolher a profissão errada, cortar o cabelo e me arrepender, quebrar a torneira da cozinha e estourar o encanamento. Queimar o jantar. Nunca ter coragem de ir aos correios sozinha por medo - mas, tudo, ao seu lado.
Eu queria a glória de você participar, e não apenas existir.
De você participar um pouquinho de mim e de quem eu sou. De poder lhe dizer como andam as coisas, ainda que elas não andem. De te contar meus medos só para você rir e eu achar que está tudo bem. Eu queria te dar um livro de presente - aliás, eu queria te dar todos os bons livros de presente. E, em cada um deles, te escrever uma dedicatória só minha, só para você. Queria te comprar comida numa barraca de rua. Queria te mostrar os caminhos alternativos que faço só para fugir do comum - literal e simbolicamente.
Eu queria poder vestir uma roupa e pedir a sua opinião, sabendo que você não dá a mínima. Queria ficar resfriada ao seu lado - ao lado de você, que já ficou resfriado perto de mim.
Eu queria te contar que há pouco comprei o livro da escritora XXX sem sequer saber que ela tem o mesmo nome que XXX. Que coincidência! - e eu nem posso te contar.
Eu queria saber como é o lugar que você mora, entrar na sua casa e te ver viver.
Queria saber como são as janelas e, se há detalhes, como eles são. Se não há, eu os crio. Queria saber se, havendo elevador, você pega a escada. Eu queria saber a cor da roupa que você está usando hoje - ah, como eu queria! E todos os dias eu te perguntaria a cor de novo, e todos os dias - até o amanhã, seriam hoje.
Eu queria saber o nome do xampu que você usa no cabelo, a marca do seu sabão em pó, quantas vezes você mastiga a comida: as coisas triviais são as mais únicas e mais importantes. Elas nos fazem ser quem somos.
Eu queria saber quantas vezes no ano você tomou sorvete. Qual foi a última coisa que você leu. O que acha do governo.
Queria que você me escrevesse: uma carta, um cartão ou apenas meu nome.
Queria que, quando você me lesse, saísse de si e visitasse a mim.
Eu queria que você me conhecesse. Me soubesse. Me entendesse. Me visse. Me sentisse. Me ligasse. Me convidasse. Me dissesse (esses verbos me deixam zonza).
Eu queria que você fosse você. Apenas você, todo e todinho.
Eu queria saber qual é o seu peso, só para compará-lo ao meu. Sabe quanto eu peso? Neste momento, 55kg, mas o meu peso era 52 kg.
Eu queria saber a sua altura, só para eu olhar para as coisas, para os prédios e para as pessoas e saber que você é mais alto - você será sempre o mais alto. E também, para saber se aquelas coisas altas, como nas gôndolas do supermercado, você pegaria para mim - só que na vida.
11 de jul. de 2017
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É
Meu deus, e se o mundo despencar? E se a chuva, que era como quase chuviscando, virar tempestade? E, se disso tudo, eu apenas sentir? Se disser que são apenas os meus sentimentos, terei justificativa? Há remédio para tudo isso? Qual o nome que isso deve se chamar? Como é ser assim? O que sou, nesse momento? E as pessoas, o que aconteceu com o que elas eram? E o que se tornaram, há um nome além daquilo, há um nome além de "papai"? O que são as pessoas agora e o que eu achei que elas eram? Como é o nome do azul do mundo neste momento, mesmo?
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Mas, então, tudo é novo de novo, como um choque no rosto, um banho frio, cair do 2o andar, descer as escarradas correndo sem tocar no corrimão, subir as ladeiras da cidade de Belo Horizonte de carro - ufa! que medo!
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Tudo deve estar sendo o que é, penso comigo mais uma vez. E pensarei assim em todas próximas "próximas vezes". A cada momento - a cada 5 minutos, quando sou levada a lembrar. Esqueço, e já lembro de novo. Me distraio, e já sou levada a retomar a realidade que me cerca. Ando um pouco e levo um tapa no rosto. Me levanto, passam alguns segundos e vem o soco no estômago: o estado das coisas neste momento.
A órbita do mundo nem uma vez sequer saiu do seu lugar. Então, está tudo certo - até o que está errado está certo, afinal.
"Tudo deve estar sendo o que é" - esse é o meu mantra diariamente, segundamente, terçamente, minutamente, num tempo inventado, porque perdi o passar dos dias.
Quando olho os seus olhos, vejo o mundo neste momento: tudo deve estar sendo o que é. Seus olhos são claros como a Criação, então não há como eu não entender os momentos. Está exposto, foi me dito, está escrito. Além disso tudo, é o que tem sido vivido. E, para isso, não há escapatória: a vida é o que se é.
As escolhas de um tempo são as escolhas da vida. Porque o que eu escolhi num momento é o que fará a histórias dos próximos dias. Isso tudo me lembra duas coisas: o livre-arbítrio, mas também o tal do destino. Será que isso tudo estava programado?
- - - - - -
Tudo deve estar sendo o que é mesmo.
Respiro fundo.
E milhares de vezes ao dia me lembrarei: "tudo deve estar sendo o que é".
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Mas, então, tudo é novo de novo, como um choque no rosto, um banho frio, cair do 2o andar, descer as escarradas correndo sem tocar no corrimão, subir as ladeiras da cidade de Belo Horizonte de carro - ufa! que medo!
TUDO DEVE ESTAR SENDO O QUE É.
Tudo deve estar sendo o que é, penso comigo mais uma vez. E pensarei assim em todas próximas "próximas vezes". A cada momento - a cada 5 minutos, quando sou levada a lembrar. Esqueço, e já lembro de novo. Me distraio, e já sou levada a retomar a realidade que me cerca. Ando um pouco e levo um tapa no rosto. Me levanto, passam alguns segundos e vem o soco no estômago: o estado das coisas neste momento.
A órbita do mundo nem uma vez sequer saiu do seu lugar. Então, está tudo certo - até o que está errado está certo, afinal.
"Tudo deve estar sendo o que é" - esse é o meu mantra diariamente, segundamente, terçamente, minutamente, num tempo inventado, porque perdi o passar dos dias.
Quando olho os seus olhos, vejo o mundo neste momento: tudo deve estar sendo o que é. Seus olhos são claros como a Criação, então não há como eu não entender os momentos. Está exposto, foi me dito, está escrito. Além disso tudo, é o que tem sido vivido. E, para isso, não há escapatória: a vida é o que se é.
As escolhas de um tempo são as escolhas da vida. Porque o que eu escolhi num momento é o que fará a histórias dos próximos dias. Isso tudo me lembra duas coisas: o livre-arbítrio, mas também o tal do destino. Será que isso tudo estava programado?
- - - - - -
Tudo deve estar sendo o que é mesmo.
Respiro fundo.
E milhares de vezes ao dia me lembrarei: "tudo deve estar sendo o que é".
9 de jul. de 2017
Algo errado não está certo
Algo errado não está certo: eu já saberia pela temperatura lá fora, pela neblina que embaça a janela do meu carro enquanto dirijo para lugar nenhum. Gosto mesmo é de ficar dirigindo, sem destino - estou me dissipando.
Alguma coisa errada não está certa, e isto sou eu quem estou falando. Falo quando não digo. Quando quero dizer, escrevo.
Algo errado não está certo e já havíamos chegado a essa conclusão no ano da copa do mundo - ele, o amigo, e eu. E o que tínhamos em comum. Sim, nós mesmos, se é o que você pensa. E o que tínhamos em comum era isso: você. Nós dois fomos um dia seus amigos...
Ei, algo errado não está certo: já dizia o meu coração, que não fala, mas assopra.
Algo, esse algo, e então escrevo na última folha do caderno, aquela escondida. Ultimamente, pago para ouvirem o assunto: é o que chamamos de "terapia" - só um bem entendido do assunto para te entender, ligar os pontos e me convencer.
Divago como se não houvesse amanhã porque, quando o amanhã chega, chamamo-o de hoje -- eu, definitivamente, não sei conjugar verbo e caminharei assim: sem dominar meu próprio idioma, que me domina e me obriga escrever.
Certo não é errado, mas o certo e o errado foram criados. Salva aquele que estuda antropologia e emprega o relativismo a seu favor: tudo é relativo, mas insisto: algo errado não está certo. E dessa vez não usei meu cérebro, do qual sempre faço uso, mas ouvi Eu. Eu, que moro aqui dentro de mim.
Eu, que sou. Enquanto o errado não é o certo.
Algo errado não está certo e a sensação é que apunhalaram a minha mão. Fecharam meus olhos para as belezas que restavam. Taparam a minha boca e perdi o som do seu nome. Meus ouvidos nunca mais vão ouvir a gentileza que é você...
Hey, você: algo errado não está certo.
Alguma coisa errada não está certa, e isto sou eu quem estou falando. Falo quando não digo. Quando quero dizer, escrevo.
Algo errado não está certo e já havíamos chegado a essa conclusão no ano da copa do mundo - ele, o amigo, e eu. E o que tínhamos em comum. Sim, nós mesmos, se é o que você pensa. E o que tínhamos em comum era isso: você. Nós dois fomos um dia seus amigos...
Ei, algo errado não está certo: já dizia o meu coração, que não fala, mas assopra.
Algo, esse algo, e então escrevo na última folha do caderno, aquela escondida. Ultimamente, pago para ouvirem o assunto: é o que chamamos de "terapia" - só um bem entendido do assunto para te entender, ligar os pontos e me convencer.
Divago como se não houvesse amanhã porque, quando o amanhã chega, chamamo-o de hoje -- eu, definitivamente, não sei conjugar verbo e caminharei assim: sem dominar meu próprio idioma, que me domina e me obriga escrever.
Certo não é errado, mas o certo e o errado foram criados. Salva aquele que estuda antropologia e emprega o relativismo a seu favor: tudo é relativo, mas insisto: algo errado não está certo. E dessa vez não usei meu cérebro, do qual sempre faço uso, mas ouvi Eu. Eu, que moro aqui dentro de mim.
Eu, que sou. Enquanto o errado não é o certo.
Algo errado não está certo e a sensação é que apunhalaram a minha mão. Fecharam meus olhos para as belezas que restavam. Taparam a minha boca e perdi o som do seu nome. Meus ouvidos nunca mais vão ouvir a gentileza que é você...
Hey, você: algo errado não está certo.
7 de jul. de 2017
O céu se enganou
O céu se enganou: mandou uma carta para o endereço errado.
Ele me olhou lá de cima, com seus olhos de imensidão, mas se tivesse me puxado, eu teria falado: "hey, não é para mim, não. Céu, tem algo errado, um leve engano, deve estar enganado".
O céu deve ter se enganado: porque me pegou desprevenida, quando eu folheava as páginas de um jornal como quem desiste da esperança. Veio falar comigo quando eu já estava de saída, quando eu já havia subido as escadas e agora descia
Hey: o céu se enganou.
O céu se enganou porque não sou eu a receber aquilo para ler, não. Porque eu quis ler algo assim tanto na vida, que se passou vários anos e eu não vi nem o reflexo de uma palavra. Nem a sombra eu vi. E isso era como um sinal de sol - do lado de lá.
O céu cometeu um engano: trocou os papéis e, vai ver, até esqueceu meu nome. Me deu um presente de aniversário quando eu já estava ficando velha - em junho sou sempre jovem, mas ele deve ter se enganado!
O céu se enganou porque não está a falar comigo. E, se está, não tenho ouvidos. Porque não quero ouvir aquilo que não sei responder. Nem quero ler, porque não sei mais escrever. As letras não têm mais o som de quando eu te escrevia. O céu só pode ter se enganado!
O céu acordou 30 minutos após o horário: já passava das 8h e ele perdeu a hora. E, eu, já estava seguindo caminho. E o céu, enganado, me viu mesmo assim. Fez chegar até a mim. Mas eu não li, não vi e não senti - até hoje tenho evitado. "O céu só pode estar enganado", penso eu todo dia. "Porque ele iria fazer isso por mim?", acrescento ao pensamento. E sigo em frente. Mas ele vem e me puxa.
E o silêncio toma conta dos dias, como nuvens negras pesadas a se aproximar - para uns, parece tempestade; para mim, é sinal da mais pura calmaria. O som do silencio é o maior estrondo que os ouvidos humanos um dia irão escutar.
Enquanto isso, a única - a única! - coisa que quebra o silêncio é minha indagação: "o céu deve ter se enganado. Eu não era o destinatário daquele remetente que nem li, não".
O céu se enganou e, estando enganado, só pode ter se enganado.
A destinatária não seria eu.
O céu se enganou.
Ele me olhou lá de cima, com seus olhos de imensidão, mas se tivesse me puxado, eu teria falado: "hey, não é para mim, não. Céu, tem algo errado, um leve engano, deve estar enganado".
O céu deve ter se enganado: porque me pegou desprevenida, quando eu folheava as páginas de um jornal como quem desiste da esperança. Veio falar comigo quando eu já estava de saída, quando eu já havia subido as escadas e agora descia
Hey: o céu se enganou.
O céu se enganou porque não sou eu a receber aquilo para ler, não. Porque eu quis ler algo assim tanto na vida, que se passou vários anos e eu não vi nem o reflexo de uma palavra. Nem a sombra eu vi. E isso era como um sinal de sol - do lado de lá.
O céu cometeu um engano: trocou os papéis e, vai ver, até esqueceu meu nome. Me deu um presente de aniversário quando eu já estava ficando velha - em junho sou sempre jovem, mas ele deve ter se enganado!
O céu se enganou porque não está a falar comigo. E, se está, não tenho ouvidos. Porque não quero ouvir aquilo que não sei responder. Nem quero ler, porque não sei mais escrever. As letras não têm mais o som de quando eu te escrevia. O céu só pode ter se enganado!
O céu acordou 30 minutos após o horário: já passava das 8h e ele perdeu a hora. E, eu, já estava seguindo caminho. E o céu, enganado, me viu mesmo assim. Fez chegar até a mim. Mas eu não li, não vi e não senti - até hoje tenho evitado. "O céu só pode estar enganado", penso eu todo dia. "Porque ele iria fazer isso por mim?", acrescento ao pensamento. E sigo em frente. Mas ele vem e me puxa.
E o silêncio toma conta dos dias, como nuvens negras pesadas a se aproximar - para uns, parece tempestade; para mim, é sinal da mais pura calmaria. O som do silencio é o maior estrondo que os ouvidos humanos um dia irão escutar.
Enquanto isso, a única - a única! - coisa que quebra o silêncio é minha indagação: "o céu deve ter se enganado. Eu não era o destinatário daquele remetente que nem li, não".
O céu se enganou e, estando enganado, só pode ter se enganado.
A destinatária não seria eu.
O céu se enganou.
6 de jul. de 2017
Papai me empresta o carro
(Essa é apenas uma música da Rita Lee)
Papai, me empresta o carro. Me empresta o carro, que a via é perigosa, é contínua e é de dia - se fosse ao menos de noite!
Me empresta o carro, que estou na subida. Me empresta logo, que daqui a pouco vem a descida. Papai, me empresta o carro para as balizas que tenho feito ao longo da vida: sempre entrei nas vagas de baliza de primeira, com muito esmero, parecendo filme - até eu me perguntava: foram minhas mãos a dirigir ou era o meu cérebro a me guiar? Mas estas, de que falo, são apenas as simples balizas de carro...
Papai, me empresta o carro, deixa o tanque cheio de gasolina, ajusta o retrovisor - sim, ajuste o retrovisor para mim. Diga-me quando frear, pega o volante se for preciso! Passa as marchas que eu há muito tempo já sei passar de cor - quero sempre um carro manual, porque carro automático é falta de criatividade!
Papai, me empresta o carro, porque todos queremos guiar e sair logo do banco de carona.
[ Um dia meu pai me deu um carro: era de manhã e ele me levou na loja para ver. A marca é Chevrolet, que é a marca que ele mais gosta. Mas eu fiz do carro algo meu: comprei um adesivo, que é apenas uma letra, a letra D, e que veio de uma longe península que está logo aqui no meu coração, e o enfeitei perto do farol traseiro. Desde então ele traz sempre consigo, e eu sempre comigo, o D, nosso amor comum. E, assim, tomei posse: entrei, dirigi, convivi com ele e o olhei nos olhos - carro tem olho, sabia? Temos convivido quase que diariamente, o meu carro e eu, com exceção dos dias que caminho sozinha, porque eu gosto muito de caminhar pelo mundo enquanto vou vivendo - caminhar é viver a fundo. ]
Voltando ao assunto: papai, me empresta o carro. Me empresta o carro que você tem. Me empresta um carro que passa por uma via do mundo. Me dá as direções. Me escuta te chamar sem falar teu nome. Me empresta e eu te devolvo o que é teu. Pego para mim só o que é meu, só o que sou eu - por isso, papai: me empresta o carro?
Papai, me empresta o carro. Me empresta o carro, que a via é perigosa, é contínua e é de dia - se fosse ao menos de noite!
Me empresta o carro, que estou na subida. Me empresta logo, que daqui a pouco vem a descida. Papai, me empresta o carro para as balizas que tenho feito ao longo da vida: sempre entrei nas vagas de baliza de primeira, com muito esmero, parecendo filme - até eu me perguntava: foram minhas mãos a dirigir ou era o meu cérebro a me guiar? Mas estas, de que falo, são apenas as simples balizas de carro...
Papai, me empresta o carro, deixa o tanque cheio de gasolina, ajusta o retrovisor - sim, ajuste o retrovisor para mim. Diga-me quando frear, pega o volante se for preciso! Passa as marchas que eu há muito tempo já sei passar de cor - quero sempre um carro manual, porque carro automático é falta de criatividade!
Papai, me empresta o carro, porque todos queremos guiar e sair logo do banco de carona.
[ Um dia meu pai me deu um carro: era de manhã e ele me levou na loja para ver. A marca é Chevrolet, que é a marca que ele mais gosta. Mas eu fiz do carro algo meu: comprei um adesivo, que é apenas uma letra, a letra D, e que veio de uma longe península que está logo aqui no meu coração, e o enfeitei perto do farol traseiro. Desde então ele traz sempre consigo, e eu sempre comigo, o D, nosso amor comum. E, assim, tomei posse: entrei, dirigi, convivi com ele e o olhei nos olhos - carro tem olho, sabia? Temos convivido quase que diariamente, o meu carro e eu, com exceção dos dias que caminho sozinha, porque eu gosto muito de caminhar pelo mundo enquanto vou vivendo - caminhar é viver a fundo. ]
Voltando ao assunto: papai, me empresta o carro. Me empresta o carro que você tem. Me empresta um carro que passa por uma via do mundo. Me dá as direções. Me escuta te chamar sem falar teu nome. Me empresta e eu te devolvo o que é teu. Pego para mim só o que é meu, só o que sou eu - por isso, papai: me empresta o carro?
2 de jul. de 2017
De sua formosura
Formosura parecia palavra clássica. Eu nunca a entendi. Mas já vi.
Parecia até que eu a tinha tirado do dicionário.
Formosura é como a forma que a gente tem: alguns se formam, têm forma, são formados, são formosos...
Outros, não. Eu, sim. Eis aqui: a formosura.
Formosura, eu diria, é o contorno do corpo da gente. É ser alto ou ser esperto. É o formato amendoado dos olhos. São as duas pintinhas de sarda que tenho no canto esquerdo ao lado dos olhos. É o meu cabelo quanto acordo com ele bagunçado de manhã.
Formosura é como estar: estou hoje; amanhã, sou.
É também que nem formidade: uma palavra que nem existia. E um dia foi criada. E, criada, passou a existir. Seremos todos formosos um dia? Entraremos todos, então, na mesma forma? Como um bolo? Formados? E sairemos do forno, todos iguais?
Fui me formar longe daqui. Fui ser formosa por ser eu. Fui pegar a formosura da vida em cada gesto meu. Fui dar forma ao que nem existia. Ser formoso é ser inteiro.
Tudo era pura formosura. Cada dia e cada noite e, no intervalo, cada minuto constituinte. Até quando fechava os olhos era formosa. E, quando o via - que formosura ser ele assim tão formoso!
Acho, afinal, que se és formoso, aos meus olhos, é porque gosto da sua forma. E a sua forma, nesse caso, é o que gosto por dentro e por fora de ti. Do fio do cabelo aos dedos do pé, do som da sua voz ao jeito que dormia. Era como o mundo a ser formado diante dos meus olhos; formosura - a forma de você ser.
Parecia até que eu a tinha tirado do dicionário.
Formosura é como a forma que a gente tem: alguns se formam, têm forma, são formados, são formosos...
Outros, não. Eu, sim. Eis aqui: a formosura.
Formosura, eu diria, é o contorno do corpo da gente. É ser alto ou ser esperto. É o formato amendoado dos olhos. São as duas pintinhas de sarda que tenho no canto esquerdo ao lado dos olhos. É o meu cabelo quanto acordo com ele bagunçado de manhã.
Formosura é como estar: estou hoje; amanhã, sou.
É também que nem formidade: uma palavra que nem existia. E um dia foi criada. E, criada, passou a existir. Seremos todos formosos um dia? Entraremos todos, então, na mesma forma? Como um bolo? Formados? E sairemos do forno, todos iguais?
Fui me formar longe daqui. Fui ser formosa por ser eu. Fui pegar a formosura da vida em cada gesto meu. Fui dar forma ao que nem existia. Ser formoso é ser inteiro.
Tudo era pura formosura. Cada dia e cada noite e, no intervalo, cada minuto constituinte. Até quando fechava os olhos era formosa. E, quando o via - que formosura ser ele assim tão formoso!
Acho, afinal, que se és formoso, aos meus olhos, é porque gosto da sua forma. E a sua forma, nesse caso, é o que gosto por dentro e por fora de ti. Do fio do cabelo aos dedos do pé, do som da sua voz ao jeito que dormia. Era como o mundo a ser formado diante dos meus olhos; formosura - a forma de você ser.
24 de jun. de 2017
If today be sweet
Eram os sábados de manhã. E também as vésperas de sábado. E até o dia depois, que tinha resquícios sabáticos. Sábado era o sétimo dia, mas para mim era sempre o primeiro, ou, quem sabe, o último: qualquer uma dessas colocações o fariam único. Afinal, sete de sábado era também um número primo.
Dessa vez o céu está de um azul escuro, e eu já reparei, com esses meus olhos tão detalhistas a encarar o mundo, que no inverno o azul do céu se impregna mais de si: vívido, como se gritasse que está ali.
If today be sweet, dirijo meu carro cujas portas são depósitos de livros. Só hoje, sábado, comprei cinco. Estaciono num lugar feito só para mim naquele momento, numa sombra que surgiu nem sei de onde e, a passos largos, entro num cinema para assistir filme francês. Todo sábado que é meu é assim.
Se hoje é doce, gravo em um lugar qualquer (alma, coração, mente, caderno, diário ... não importa onde, mas sei que irei sempre lembrar) um senhor de cabelo branco, médico, cuja palestra assisti (eu adoro aprender): o que mais me chamou atenção, além de suas viagens e assertividade, era como falava dos livros. "Aquele livro que li" ou "este livro que estou lendo" e aí nos passava o nome. Aquilo para mim era a mais pura expressão de esperança no mundo. Era como um amor à vida. Era como nunca ter medo de acabar. Em seus, sei lá, oitenta anos, ele ainda lia livros como se não fosse morrer. Será que ficava ansioso para ler o máximo possível já que os dias estavam prestes a acabar? Aquilo sim era a doçura do mundo.
A doçura do mundo... ela apareceu me acenando ali na esquina. Estou sempre distraída com o detalhe dos sons da música no carro, ou observando o ângulo de um prédio se eu tivesse feito arquitetura, ou enxergando a poesia que quiseram apagar. Estou sempre distraída, mas às vezes paro e penso - ou melhor, sinto.
Fui ao supermercado e no caminho havia um vento frio tão meu - eu não poderia ter ficado mais feliz. Comprei sete pães de queijo que, pelas minhas contas, saíram a menos de 30 centavos cada um, e eu pensei como que a vida parecia um milagre incrível. Enquanto isso, no caixa, eu olhava para o outro lado da rua onde havia uma farmácia: ah, quanta possibilidade! Quanta poesia! (acho que estou muito sensível neste momento, como que aberta para o mundo dizer-me e para expressar-me a mim que sou).
O moço da livraria respondeu a minha mensagem hoje de manhã: Eichamann em Jerusalém tinha. O outro livro, não. Mas então eu fui em outro canto abençoado do mundo, as tais livrarias, e encontrei o livro que queria e mais quatro. Sim, hoje foram cinco.
Sábado é a doçura do mundo. É quando o gosto da vida sai doce parecendo salgado. É quando não há culpa e há entrega. É quando somos nós mesmos do nascer ao pôr do sol. É o dia em que se escolhe fazer o que quiser. É como alguém pegando na nossa mão nessa caminhada. É sempre de dia e, quando chega a noite, tudo se renova e se faz novo de novo.
A doçura do mundo.
If today be sweet...
Dessa vez o céu está de um azul escuro, e eu já reparei, com esses meus olhos tão detalhistas a encarar o mundo, que no inverno o azul do céu se impregna mais de si: vívido, como se gritasse que está ali.
If today be sweet, dirijo meu carro cujas portas são depósitos de livros. Só hoje, sábado, comprei cinco. Estaciono num lugar feito só para mim naquele momento, numa sombra que surgiu nem sei de onde e, a passos largos, entro num cinema para assistir filme francês. Todo sábado que é meu é assim.
Se hoje é doce, gravo em um lugar qualquer (alma, coração, mente, caderno, diário ... não importa onde, mas sei que irei sempre lembrar) um senhor de cabelo branco, médico, cuja palestra assisti (eu adoro aprender): o que mais me chamou atenção, além de suas viagens e assertividade, era como falava dos livros. "Aquele livro que li" ou "este livro que estou lendo" e aí nos passava o nome. Aquilo para mim era a mais pura expressão de esperança no mundo. Era como um amor à vida. Era como nunca ter medo de acabar. Em seus, sei lá, oitenta anos, ele ainda lia livros como se não fosse morrer. Será que ficava ansioso para ler o máximo possível já que os dias estavam prestes a acabar? Aquilo sim era a doçura do mundo.
A doçura do mundo... ela apareceu me acenando ali na esquina. Estou sempre distraída com o detalhe dos sons da música no carro, ou observando o ângulo de um prédio se eu tivesse feito arquitetura, ou enxergando a poesia que quiseram apagar. Estou sempre distraída, mas às vezes paro e penso - ou melhor, sinto.
Fui ao supermercado e no caminho havia um vento frio tão meu - eu não poderia ter ficado mais feliz. Comprei sete pães de queijo que, pelas minhas contas, saíram a menos de 30 centavos cada um, e eu pensei como que a vida parecia um milagre incrível. Enquanto isso, no caixa, eu olhava para o outro lado da rua onde havia uma farmácia: ah, quanta possibilidade! Quanta poesia! (acho que estou muito sensível neste momento, como que aberta para o mundo dizer-me e para expressar-me a mim que sou).
O moço da livraria respondeu a minha mensagem hoje de manhã: Eichamann em Jerusalém tinha. O outro livro, não. Mas então eu fui em outro canto abençoado do mundo, as tais livrarias, e encontrei o livro que queria e mais quatro. Sim, hoje foram cinco.
Sábado é a doçura do mundo. É quando o gosto da vida sai doce parecendo salgado. É quando não há culpa e há entrega. É quando somos nós mesmos do nascer ao pôr do sol. É o dia em que se escolhe fazer o que quiser. É como alguém pegando na nossa mão nessa caminhada. É sempre de dia e, quando chega a noite, tudo se renova e se faz novo de novo.
A doçura do mundo.
If today be sweet...
10 de jun. de 2017
Flor dá cada susto
Flor dá cada susto: o botão se fecha - passa primavera, vem o verão, chega o outono e é agora inverno - e, então, quando a gente está passando, sem mais nem menos, assim do nada, a flor se abre.
Flor dá cada susto, faz a gente dá um pulo com o coração. Flor já até morou nele. Flor agora reside em algum lugar por aí.
Flor dá cada susto - flor é substantivo feminino no português. Mas, para mim, flor é substantivo masculino, porque flor, neste caso aqui neste momento, uso para me referir a Você.
Flor é adjetivo: a gente chama quem a gente gosta de flor - isto é, no português fazemos assim.
Falo em línguas, falo inglês. Nunca disse o que seria, porque não falei português.
Flor dá cada susto: olho e vejo uma flor, quando nem mais a via.
Flor é uma coisa assustadora: ora nos assusta, ora é suave.
Flor também é cheirosa e às vezes sinto o cheiro dela lá do outro lado do mundo, que é do mesmo lado, só que atravessando o mar.
Flor assusta tanto.
Flor dá cada susto e eu te chamei de flor. Flor é substantivo, adjetivo, nome próprio, advérbio de tempo e de lugar. Flor é outra língua estrangeira, flor é Você.
Ei, Você, você me é uma florzinha. Ou um florzinho. E a cor da flor é amarela.
Flor, você me dá cada susto.
Flor dá cada susto, faz a gente dá um pulo com o coração. Flor já até morou nele. Flor agora reside em algum lugar por aí.
Flor dá cada susto - flor é substantivo feminino no português. Mas, para mim, flor é substantivo masculino, porque flor, neste caso aqui neste momento, uso para me referir a Você.
Flor é adjetivo: a gente chama quem a gente gosta de flor - isto é, no português fazemos assim.
Falo em línguas, falo inglês. Nunca disse o que seria, porque não falei português.
Flor dá cada susto: olho e vejo uma flor, quando nem mais a via.
Flor é uma coisa assustadora: ora nos assusta, ora é suave.
Flor também é cheirosa e às vezes sinto o cheiro dela lá do outro lado do mundo, que é do mesmo lado, só que atravessando o mar.
Flor assusta tanto.
Flor dá cada susto e eu te chamei de flor. Flor é substantivo, adjetivo, nome próprio, advérbio de tempo e de lugar. Flor é outra língua estrangeira, flor é Você.
Ei, Você, você me é uma florzinha. Ou um florzinho. E a cor da flor é amarela.
Flor, você me dá cada susto.
Assinar:
Postagens (Atom)